A história de uma vítima
No auge de seus 85 anos, dona Maria Helena, uma cuiabana que carrega com orgulho suas raízes, se destaca como uma mulher autônoma e ativa.
Ela vive sozinha e é conhecida por sua independência ao lidar com assuntos financeiros e viajar. Com uma memória admirável e uma organização financeira que surpreende a todos ao seu redor, seu maior prazer é usufruir das alegrias da vida, como dançar e explorar novos destinos.
Após 30 anos de serviço público, a aposentada desfruta de uma renda mensal de aproximadamente R$ 8 mil. No entanto, sua tranquilidade foi abruptamente interrompida quando, no mês passado, ela caiu em um golpe que a deixou marcada pela tristeza e pela vergonha.
Como muitas outras vítimas, Maria Helena sente-se culpada por ter sido enganada. Um criminoso, disfarçado de gerente de sua conta bancária, a levou a contrair uma dívida de R$ 11 mil, enquanto ela acreditava estar esclarecendo uma dúvida sobre o pagamento de sua fatura de cartão de crédito.
O contato foi feito via WhatsApp, onde o golpista se apresentava como sua gerente, usando uma foto que parecia autêntica e informações detalhadas sobre sua conta. “A foto era da minha gerente, não tenho dúvida”, afirma a vítima. “Ela veio com todos os dados, confiei e digitei a senha do cartão”, lamenta.
“Filha, tenho vergonha de falar desse assunto. Estou me sentindo uma idiota”, desabafa Maria Helena, visivelmente abalada. “Pensei até em cancelar a viagem que tenho marcada para a próxima semana”, revela, expressando a profunda tristeza que a situação trouxe.
Apesar dos esforços familiares para confortá-la, a dor emocional é difícil de superar. Maria Helena procurou o banco onde possui conta, mas recebeu a notícia de que a instituição se recusa a reconhecer qualquer falha na segurança e, consequentemente, não a ressarcirá. Agora, com a ajuda de seu neto advogado, ela busca recuperar o dinheiro perdido através de vias judiciais.
Um panorama alarmante
As estatísticas sobre golpes em Mato Grosso são preocupantes. Entre janeiro e março de 2026, 7.716 mato-grossenses registraram queixas sobre estelionato, o que representa uma média mensal de 2.572 ocorrências, ou 86 por dia.
Analisando os dados, isso equivale a aproximadamente quatro denúncias formalizadas a cada 24 horas. Na capital, Cuiabá, 1.825 pessoas foram vítimas de crimes dessa natureza no mesmo período. O ano de 2025 fechou com um total de 35.926 registros de golpes, sendo que quase 70% deles ocorreram por meio de aplicativos de bancos e redes sociais, especialmente o WhatsApp.
O aplicativo, que no caso de Maria Helena foi utilizado pelo golpista, é uma ferramenta comum entre criminosos virtuais, participando de aproximadamente 37% das fraudes registradas. Em 2025, 13.300 golpes foram realizados através de clonagens de números e criação de perfis falsos, conforme dados do Observatório de Segurança Pública da Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso.
Os golpistas costumam usar fotos de advogados, gerentes de bancos, familiares e outras pessoas conhecidas para enganar suas vítimas. Além disso, com o uso da Inteligência Artificial, eles têm conseguido imitar vozes, tornando suas abordagens ainda mais convincentes e aumentando a confiança das vítimas.
Essa situação alarmante ressalta a necessidade de uma conscientização ainda maior sobre a segurança digital, especialmente entre grupos mais vulneráveis, como os idosos, que podem ter mais dificuldade em identificar fraudes e golpes. A história de Maria Helena ilustra a urgência de um debate sobre como proteger melhor nossos cidadãos e combater essa onda de criminalidade que assola o estado.
