Alta Execução Orçamentária com Descompasso nas Decisões
Mato Grosso alcançou uma execução orçamentária de 103,51% em 2024, investindo R$ 33,18 bilhões conforme o levantamento do Radar Brasil, estudo conduzido pela consultoria Santo Caos que avalia a governança dos 27 governos estaduais. Apesar do desempenho financeiro robusto, o estado apresenta uma discrepância significativa entre o discurso oficial e as decisões efetivamente tomadas ao longo do período analisado.
Na dimensão financeira, Mato Grosso recebeu nota 70, uma das maiores da pesquisa, e o detalhamento dos gastos por secretaria alcançou a nota máxima. No entanto, o subcritério que avalia o alinhamento entre discurso e decisões marcou zero ponto, a pior avaliação registrada no diagnóstico, evidenciando um descompasso institucional preocupante.
Posição no Ranking Nacional e Casos em Apuração
Com 53,35 pontos, Mato Grosso ocupa a 19ª colocação no ranking nacional de governança, dentro da faixa intermediária. A distância entre discurso e prática é de apenas -0,44 ponto, já que outras dimensões compensam parcialmente essa divergência. Entretanto, o estudo destaca problemas em setores estratégicos, como a Secretaria de Saúde e contratos emergenciais no BRT Cuiabá-Várzea Grande.
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O Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) e o Ministério Público local investigam cerca de R$ 55 milhões em recursos federais destinados a três empresas com sócios em comum vinculados à Secretaria de Saúde. Paralelamente, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) solicitou explicações sobre contratos emergenciais do BRT que somam mais de R$ 403 milhões, com aumento de 75% sem licitação, decisão tomada em junho de 2026. Essas investigações ainda estão em curso e não configuram condenações.
Desafios na Transparência e Monitoramento
O levantamento também aponta fragilidades na estrutura que conecta orçamento, contratos e entregas. Apesar da elevada execução financeira, o Portal da Transparência de Mato Grosso não oferece ranking nominal por secretaria nem integração com o Programa Nacional de Controle Público (PNCP), dificultando a pesquisa de contratos por fornecedor. Nessa área, o estado obteve 25 pontos tanto na arquitetura formal quanto na rastreabilidade, indicando espaço para melhorias.
Na dimensão social, o estudo registra atenção especial à segurança pública. A mortalidade violenta intencional reduziu-se em 0,90 ponto no estado, abaixo da queda nacional de 1,18 ponto no período avaliado. Além disso, houve uma leve piora na taxa de feminicídio, aspecto que demanda acompanhamento contínuo.
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Capacidade Financeira versus Governança
O diagnóstico revela que, embora Mato Grosso demonstre elevada capacidade de execução financeira, há lacunas importantes na estrutura de acompanhamento e controle das decisões e entregas públicas. O Radar Brasil destaca que o desafio central não está apenas no volume executado, mas na existência de uma estrutura que relacione cada recurso a contratos, fornecedores e resultados.
Guilherme Françolin, sócio-fundador da Santo Caos, reforça que a alta execução orçamentária não garante alinhamento entre prioridades declaradas e decisões governamentais. “Executar o orçamento é fundamental, mas a população precisa entender se as decisões refletem as prioridades estabelecidas e se há um sistema que acompanhe esse processo”, afirma.
O estudo do Radar Brasil avaliou cinco dimensões — Discurso, Decisões, Dinheiro, Dinâmica Social e Design Institucional — utilizando 3,7 mil pontos de dados públicos. Ao todo, os 26 estados e o Distrito Federal foram analisados a partir de 30 subcritérios, oferecendo um panorama amplo da governança estadual no país.
