Seminaristas exploram a Missiologia Indigenista em Mato Grosso
Os seminaristas do Regional Oeste 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) participaram de uma formação dedicada à Missiologia Indigenista na Unifacc – União das Faculdades Católicas de Mato Grosso. O curso faz parte da preparação dos futuros presbíteros e buscou ampliar a compreensão sobre a realidade dos povos indígenas, suas histórias, culturas, espiritualidades e os desafios ligados à proteção de seus territórios e direitos.
Conduzida pelo professor em Teologia, Padre Francisco Prim, a formação contou com a colaboração de especialistas e professores da área indígena. Entre os temas abordados estiveram a história da missão indigenista no Brasil, a legislação vigente, a atuação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), a defesa dos territórios tradicionais e as novas formas de missão pautadas na escuta, no diálogo e no respeito às diversas culturas.
Experiência direta com o povo Bororo
Um momento marcante da formação foi a participação do Irmão Mário Bordignon Enauréu, salesiano de origem italiana, historiador e missionário com longa trajetória junto aos povos indígenas, principalmente o povo Bororo, em Mato Grosso. Seu trabalho também envolve educação e preservação da cultura Bororo.
Ao compartilhar sua experiência, Mário destacou a transformação na missão da Igreja após o Concílio Vaticano II, quando a atuação deixou de ser apenas uma ação “para” os povos indígenas para se tornar uma caminhada conjunta, valorizando a autonomia, os conhecimentos e o protagonismo desses povos. Nesse contexto, a trajetória do Padre Rodolfo Lunkenbein, missionário salesiano que trabalhou com os Bororo em Meruri, foi ressaltada como um exemplo de compromisso com a defesa da vida, cultura e território indígena.
Quatro eixos fundamentais: terra, cultura, protagonismo e diálogo
A reflexão da formação se organizou em torno de quatro temas centrais. O primeiro, a terra, foi apresentado não apenas como propriedade, mas como elemento ligado à memória, identidade, cultura, espiritualidade e continuidade da vida comunitária dos povos indígenas. A luta do povo Bororo pela demarcação de seus territórios exemplifica essa conexão profunda.
Leia também: Turismo no Pantanal: Experiências Únicas Entre Natureza e Cultura em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
Leia também: Audiência Pública em Cuiabá Reúne Lideranças Indígenas de Mato Grosso
O segundo eixo, a cultura, enfatizou a importância de conhecer as línguas, costumes, rituais, símbolos e saberes tradicionais. Entender a cultura significa reconhecer uma forma própria de interpretar a vida e estabelecer relações com o mundo, não apenas identificar elementos externos.
O terceiro ponto foi o protagonismo indígena. A formação reforçou que os povos originários devem ser sujeitos ativos de sua história, participando das decisões sobre seus territórios, comunidades e futuro. A missão deve caminhar ao lado dessas lideranças, com respeito e colaboração, sem substituir suas vozes.
Por fim, o diálogo inter-religioso e intercultural foi apresentado como parte essencial da pastoral indigenista, buscando respeitar as diferentes experiências espirituais, símbolos, mitos e rituais dos povos originários.
Território, natureza e espiritualidade entrelaçados
Outro aspecto aprofundado foi a relação entre território, natureza e espiritualidade. Para muitos povos indígenas, a natureza não é apenas um espaço físico ou recurso, mas parte de uma visão de mundo que integra seres humanos, elementos naturais, memória e espiritualidade. Essa percepção explica por que a terra tem um significado que vai além do valor econômico, sendo espaço de pertencimento e identidade.
Compreender a cosmologia indígena é fundamental para uma missão que respeite verdadeiramente as comunidades. Conhecer rituais, símbolos e tradições aproxima o missionário da realidade dos povos sem reduzir suas experiências a interpretações externas. Essa visão dialoga com a encíclica Laudato si’, do Papa Francisco, que destaca a interligação das dimensões da criação.
Leia também: Audiência Pública em Cuiabá Destaca a Importância da Terra Indígena em Mato Grosso
Leia também: ATL 2024: Acampamento Indígena em Mato Grosso Promove Articulação Política e Cultural
Memória e compromisso da missão indígena
A trajetória do Padre Rodolfo Lunkenbein foi destacada como exemplo concreto de missão comprometida. Atuando na defesa do território Bororo em Meruri, ele foi assassinado em 15 de julho de 1976, junto com o indígena Simão Bororo, em meio a conflitos fundiários. A memória dos dois permanece ligada à luta pelos direitos do povo Bororo e à demarcação da reserva.
O lema sacerdotal de Padre Rodolfo – “Eu vim para servir e dar a vida” (Mc 10,45) – simboliza uma missão pautada na presença, coragem e compromisso ao lado dos povos indígenas. Sua história é apresentada aos seminaristas como inspiração para uma atuação missionária que exige entrega e sensibilidade.
Formação que prepara para uma missão respeitosa e colaborativa
Para os seminaristas do Regional Oeste 2, a Missiologia Indigenista vai além do conhecimento teórico. Ela representa uma oportunidade de se conectar com uma realidade presente no território onde muitos exercerão seu ministério. As experiências compartilhadas e as memórias dos missionários reforçam a necessidade de uma postura de escuta, diálogo e respeito.
Os quatro eixos – terra, cultura, protagonismo indígena e diálogo inter-religioso – indicam um modelo de presença eclesial que supera práticas de imposição, buscando construir relações genuínas com os povos originários. O missionário é convidado a escutar antes de falar, conhecer antes de julgar e caminhar junto antes de propor.
A missão, assim, se configura como encontro e reconhecimento da dignidade, história, cultura e espiritualidade de cada povo. A formação prepara ministros para dialogar com diversas culturas e servir com respeito, valorizando os indígenas como protagonistas de sua própria caminhada.