Vozes Femininas que Marcaram Épocas
Comemorar o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é mais do que uma simples data no calendário. É uma oportunidade de relembrar e valorizar as histórias de coragem e transformação que moldaram a sociedade, especialmente em Mato Grosso. Ao longo dos séculos, figuras femininas como Tereza de Benguela, Mãe Bonifácia e Maria Taquara se destacaram por suas contribuições significativas à cultura, à política e à identidade do estado.
Para aprofundar essa discussão, conversamos com a historiadora Cristina Soares, doutoranda em História, artista plástica e escritora, que se dedica a pesquisar a presença de mulheres negras na história mato-grossense e seu impacto. “Essas mulheres desafiaram as normas sociais de suas épocas e se tornaram símbolos de resistência e protagonismo”, afirma Cristina.
Tereza de Benguela: A Rainha do Quilombo
No século XVIII, Tereza de Benguela se destacou como uma das mais influentes lideranças quilombolas do Brasil. Ela foi a governante do Quilombo do Quariterê, localizado na região de Vila Bela da Santíssima Trindade. Segundo Cristina Soares, a liderança de Tereza se estendeu por aproximadamente 40 anos. “Ela governou por duas décadas ao lado de José Piolho e, após seu falecimento, assumiu sozinha a liderança por mais 20 anos”, relata.
Esse quilombo não era apenas um abrigo para aqueles que escapavam da escravidão. Era um espaço de liberdade, com uma comunidade organizada que cultivava alimentos, praticava comércio e desenvolvia estratégias de defesa. “Era um verdadeiro território de resistência, onde as pessoas viviam em sociedade, produzindo e se organizando coletivamente”, destaca a historiadora.
Além disso, a forma como as decisões eram tomadas no quilombo também merece destaque. “As deliberações aconteciam de maneira coletiva, com um formato que se assemelhava a um parlamento. Isso evidencia a força da participação social e da liderança feminina,” complementa.
Mãe Bonifácia: Sabedoria e Cura Ancestral
No século XIX, Mãe Bonifácia emergiu como outra figura emblemática na história de Cuiabá. Ex-escravizada e, posteriormente, alforriada, ela se tornou referência em tratamentos com plantas medicinais e práticas de cura. “Mãe Bonifácia possuía um conhecimento ancestral muito significativo. Ela utilizava plantas para curar, um trabalho que muitas benzedeiras continuam a realizar até hoje”, explica Cristina Soares.
Além de suas habilidades como curandeira, Mãe Bonifácia também se destacou como artesã, criando rendas com bilros, um ofício muito valorizado da época. Durante a Guerra do Paraguai, sua casa serviu como abrigo para doentes e soldados que necessitavam de cuidados. Apesar de ter enfrentado a varíola, Mãe Bonifácia viveu até cerca de 80 anos, uma longevidade rara para a população negra na época. Seu legado permanece vivo no Parque Mãe Bonifácia, um dos principais espaços de lazer da capital.
Maria Taquara: A Revolucionária de Cuiabá
Avançando para o século XX, encontramos Maria Taquara, uma personalidade que se destacou nas ruas de Cuiabá. Lavadeira de profissão, Maria era reconhecida por sua postura revolucionária e ousadia em sua vida cotidiana. “Ela trabalhava, saía, bebia, fumava e vivia de acordo com suas próprias regras. Em uma época em que muitas mulheres ainda lutavam por direitos básicos, sua atitude desafiava diversas normas sociais”, observa a historiadora.
Ademais, Maria Taquara foi uma das pioneiras a usar calças na cidade, uma atitude considerada audaciosa no contexto sociocultural da época. Sua vida gerou estigmas e narrativas frequentemente associadas à sua liberdade, refletindo um olhar preconceituoso sobre o corpo da mulher negra. “É importante reconhecer que Maria também enfrentou um estigma social que tentava rotulá-la de forma injusta”, enfatiza Cristina Soares. Entretanto, sua memória continua viva e foi eternizada em uma escultura no centro de Cuiabá.
Um Legado que Ecoa no Presente
As trajetórias de Tereza de Benguela, Mãe Bonifácia e Maria Taquara, que atravessam os séculos XVIII, XIX e XX, ainda ressoam fortemente diante dos desafios contemporâneos enfrentados pelas mulheres. Para Cristina Soares, essas figuras não são apenas parte do passado, mas representam uma fonte de inspiração e provocação. “Elas deixam um legado de força e potência, mostrando que é possível romper barreiras e construir novas realidades”, conclui.
Neste Dia Internacional da Mulher, relembrar essas histórias não é apenas um ato simbólico, mas um reconhecimento de que a construção da sociedade mato-grossense é indissociável da coragem e do esforço de mulheres que desafiaram as limitações de seu tempo.
