A reorganização das forças políticas em Mato Grosso
Mato Grosso atravessa uma transformação significativa em seu cenário político. Por décadas, a chamada “familiocracia” dominou as decisões institucionais e a condução econômica do estado, espelhando um padrão que ainda persiste em várias regiões do Brasil. Contudo, a ascensão rápida da representação corporativa do agronegócio, aliada à consolidação da direita, tem redefinido o panorama eleitoral, promovendo uma divisão clara entre os clãs tradicionais, que vêm perdendo força, e as novas lideranças conservadoras.
A persistência dos clãs tradicionais
Embora o monopólio político das famílias históricas tenha sido reduzido, essas estruturas continuam presentes e relevantes. Famílias tradicionais mantêm participação significativa nos partidos e ocupam mandatos legislativos, além de cargos estratégicos no Poder Executivo. A família Campos exemplifica essa realidade. Reconhecida como a dinastia política mais influente de Várzea Grande, segunda maior cidade do estado e parte da região metropolitana de Cuiabá, ela mantém liderança há mais de 50 anos.
O patriarca Júlio Domingos de Campos, conhecido como “Seo Fiote”, deu início a esse legado, que se consolidou por meio dos filhos e demais familiares. Jayme Campos (União Brasil) é uma figura central, tendo exercido três mandatos como prefeito de Várzea Grande, governado o estado e atualmente atuando como senador da República. Ele também disputará novamente o governo estadual. Seu irmão, Júlio Campos (União Brasil), tem trajetória extensa, com passagens por cargos como prefeito, governador, deputado federal e deputado estadual. Lucimar Campos, esposa de Jayme, governou Várzea Grande entre 2015 e 2020.
Apesar da tradição e da força eleitoral que ainda carregam, a influência dos Campos não mantém o mesmo peso das décadas anteriores. Em municípios menores, as famílias tradicionais mantêm seu domínio por meio de alianças locais e controle das estruturas partidárias. Pesquisadores da sociologia política, como o grupo Relações Familiares nas Instituições e no Poder, liderado pelo sociólogo Ricardo Costa de Oliveira do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal, estudam como redes de parentesco e nepotismo estrutural perpetuam a presença dessas elites nas instituições políticas e jurídicas.
Leia também: China lidera como maior parceira comercial do agronegócio de Mato Grosso do Sul com recorde em exportações
Leia também: Mato Grosso AgroFestival une cultura e agronegócio e celebra Cuiabá como polo regional
O agronegócio como eixo central de poder
O peso de sobrenomes tradicionais já não garante vitórias eleitorais como antes. Hoje, a conexão com o agronegócio é fator decisivo para viabilidade política em Mato Grosso. O estado, consolidado como potência econômica graças à produção de grãos e carnes, vê essa força traduzida diretamente nas urnas.
Além de ser um motor econômico, o agronegócio se estrutura como centro de financiamento, comunicação e mobilização política. Temas como defesa da propriedade privada, segurança jurídica no campo e flexibilização de normas ambientais caminham lado a lado com pautas conservadoras relacionadas a patriotismo, família e valores tradicionais.
Essa nova realidade exigiu que as oligarquias políticas se adaptassem. Para manter relevância eleitoral, muitas famílias tradicionais passaram a integrar ou se aproximar do universo político e econômico do agronegócio, que hoje determina lideranças e agendas de poder no estado.
A presença da direita nas eleições municipais
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que partidos de direita e centro-direita conquistaram a maioria das prefeituras nos principais colégios eleitorais e polos econômicos de Mato Grosso nas últimas eleições municipais. Siglas como PL e União Brasil ampliaram sua presença em regiões estratégicas, enquanto partidos de esquerda apresentaram desempenho mais restrito.
Leia também: Mato Grosso AgroFestival em Cuiabá: programação intensa celebra cultura e agronegócio
Leia também: Economia de Mato Grosso: Entenda os Impactos e Oportunidades do Agronegócio
Em Cuiabá, o maior colégio eleitoral do estado, o candidato Abilio Brunini (PL) venceu o segundo turno com 171.324 votos, correspondendo a 53,8% dos votos válidos. Essa eleição é vista como marco do avanço conservador em Mato Grosso.
Movimentos similares ocorreram em Várzea Grande, onde Flávia Moretti (PL) foi eleita em 2024, e em Rondonópolis, com a vitória de Claudio Ferreira (PL) obtendo 45,74% dos votos válidos. Em Primavera do Leste e Campo Novo do Parecis, Sergio Machnic (PL) e Piaia (PL) também conquistaram as prefeituras com ampla margem.
Por outro lado, o Partido dos Trabalhadores (PT) não conseguiu eleger nenhum prefeito no estado, demonstrando limitação na ampliação de sua base municipal.
Uma nova configuração de poder em Mato Grosso
O quadro político de Mato Grosso não indica o desaparecimento das famílias tradicionais, mas evidencia sua adaptação a um contexto em transformação. A influência política, antes vinculada a sobrenomes históricos, hoje depende da capacidade de dialogar com o agronegócio e um eleitorado que se mostra majoritariamente conservador. Essa mudança tem moldado a distribuição do poder no estado, apontando para novas disputas e articulações nos próximos ciclos eleitorais.
