A Resistência do Carnaval Cuiabano
O carnaval em Cuiabá, que teve suas origens na década de 1860, é um exemplo notável de como a cultura pode se adaptar e resistir a diversas adversidades. Ao longo de sua história, a festa enfrentou mudanças políticas, crises econômicas, alagações e preconceitos, mas continua sendo uma expressão cultural importante da cidade. Com uma trajetória que inclui marchinhas, blocos e escolas de samba, este evento tradicional não apenas mobilizou multidões, mas também se tornou um símbolo de resistência e identidade.
Recentemente, o escritor e pesquisador Aníbal Alencastro compartilhou suas reflexões com o MidiaNews sobre a evolução do carnaval cuiabano e as transformações que ocorreram ao longo do tempo. Ele destaca que, mesmo em momentos de repressão, como durante a Ditadura Militar, a festividade continuou a existir, oferecendo um espaço para crítica social e expressão cultural.
De acordo com Alencastro, o carnaval floresceu em períodos de liberdade e enfrentou os desafios impostos pela censura. “A liberdade é essencial para o povo, e, com a ditadura, perdemos muito disso. A sociedade se tornou mais reservada”, afirmou. Mesmo assim, a população encontrava formas de celebrar, mostrando que o carnaval é mais do que uma festa: é uma manifestação cultural que resiste ao tempo.
Apesar disso, a participação popular no carnaval diminuiu. Victor Hugo Aguiar, membro do bloco Império de Casa Nova, fundado por sua família, reconhece que o trabalho dos que ainda estão envolvidos na festa vai além do simples entretenimento. “Precisamos de mais valorização do carnaval em Cuiabá. Sem apoio, a tradição corre o risco de morrer. Mas, como dizem, o samba agoniza, mas não morre”, afirmou.
A Origem do Carnaval Cuiabano
Aníbal Alencastro, que dedicou boa parte de sua vida a estudar o carnaval cuiabano, identificou registros das primeiras celebrações, que culminaram na fundação da Sociedade Carnavalesca em 1861. Essa sociedade foi o marco para a organização de festas que uniram a comunidade, precedendo o tradicional Corso.
Na década de 1920, quando os automóveis começaram a chegar à capital, eles se tornaram parte integral das festividades. “Os proprietários enfeitavam seus carros e saíam desfilando pela cidade, criando o Corso”, lembrou Alencastro. Esse desfile, que percorria do Centro ao Porto, unia a população em um espetáculo de alegria e música.
Com o tempo, surgiram os Cordões, hoje conhecidos como blocos, e a famosa Batalha de Confetes, um pré-carnaval que, em certos períodos, recebeu apoio da prefeitura. “Esses cordões promoviam grandes festas, que serviam como um aquecimento para o Carnaval oficial”, destacou.
Momentos Decisivos e Desafios
A primeira escola de samba da cidade, a Deixa Cair, foi fundada em 1967 por Humberto Mendes de Oliveira, o Beto. A iniciativa trouxe entusiasmo à sociedade cuiabana, mas a aceitação dos trajes curtos para o desfile causou receios entre as mulheres da elite, que acabaram desistindo de participar. Para contornar a situação, a organização buscou apoio junto a profissionais do sexo, que prontamente se uniram ao desfile. “O primeiro desfile foi um sucesso, com a sociedade aplaudindo de pé”, recordou Aníbal.
Apesar do êxito, a escola enfrentou preconceito e não recebeu prêmios devido ao seu formato, que incluía participantes marginalizados. Essa resistência cultural, no entanto, sinalizou uma nova era para o carnaval, que continuou a evoluir com a entrada da Banda Universitária em 1975 e a Mocidade Independente Universitária no ano seguinte.
Entretanto, a repressão policial, a violência e a escassez de apoio contribuíram para a diminuição do carnaval, junto a uma grande enchente no bairro do Terceiro na década de 1970, que danificou blocos tradicionais.
Um Futuro Esperançoso para o Carnaval
Nos últimos anos, a Liga Independente dos Blocos Carnavalescos e Escolas de Samba de Cuiabá tem trabalhado para revitalizar a festividade, buscando apoio e promovendo eventos que atraem o público. Victor Hugo compartilha sua esperança ao afirmar que, apesar das dificuldades, o carnaval ainda é caloroso e reúne aqueles que realmente se dedicam à festa. “Se o público não se interessar, o carnaval desaparece. Precisamos manter o nível e atrair pessoas para garantir a continuidade dessa tradição”, concluiu.
O Desfile dos Blocos de Carnaval está agendado para os dias 6 e 7 de fevereiro, às 18h, na Arena Pantanal. No dia 8, acontecerá a apuração dos votos, com apresentações de artistas nacionais e regionais, buscando atrair ainda mais foliões e revitalizar o carnaval cuiabano.
