Desafios da Inadimplência no Agronegócio Potiguar
No Rio Grande do Norte, o agronegócio enfrenta um cenário alarmante, com um índice de inadimplência de 12,8%, o mais alto da região Nordeste e o quarto maior do Brasil. Os dados, obtidos pela Serasa Experian, referem-se ao terceiro trimestre de 2025 e revelam que a média nacional é de 8,3%, enquanto o Nordeste apresenta um índice de 9,7%. Entre os estados com maior inadimplência, destacam-se Roraima (13,3%), Amazonas (14,3%) e Amapá (19,8%). Os arrendatários e produtores de médio porte são os mais impactados nessa realidade no RN.
Conforme a pesquisa, 16,9% dos inadimplentes no setor agropecuário potiguar não possuem registro rural formal, incluindo arrendatários e membros de grupos econômicos ou familiares. Já 14,7% são produtores de médio porte, 13,6% são de grande porte e 11% pertencem ao segmento de pequenos produtores.
Fatores que Agravam a Situação
José Álvares Vieira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern), aponta que a atual situação é resultado de uma combinação de fatores econômicos e estruturais que se intensificaram em 2025. “A pressão do ambiente macroeconômico, caracterizado por juros elevados e aumento dos custos de produção, impacta diretamente o fluxo de caixa dos produtores, dificultando a quitação de dívidas”, ressalta.
Vieira também menciona que, além da pressão financeira, o agronegócio potiguar é vulnerável a questões climáticas e à dependência de atividades que exigem altos custos operacionais, como a pecuária e a fruticultura irrigada. “As margens historicamente estreitas, especialmente fora das cadeias mais capitalizadas, tornam o cenário ainda mais crítico”, explica ele.
Embora o aumento da inadimplência tenha sido gradual, Vieira adverte que a continuidade dessa trajetória deve acender um alerta, demandando medidas estruturais que evitem o agravamento da situação do endividamento rural no estado.
Aumento da Inadimplência e Impactos Climáticos
Os números da Serasa Experian mostram que, no terceiro trimestre do ano anterior, a inadimplência aumentou 0,2 pontos percentuais em relação ao trimestre anterior — que registrou 12,6% — e 0,8 pontos se comparado ao mesmo período de 2024, quando a inadimplência era de 12%.
Erivam do Carmo, presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado (Fetarn), afirma que a estiagem em áreas-chave para o setor tem contribuído significativamente para essa situação. “A seca afeta gravemente as safras. Quando o prazo para o pagamento das dívidas se aproxima, o produtor geralmente não consegue se organizar financeiramente para quitar os débitos”, observa Erivam.
A Invisibilidade dos Produtores
De acordo com José Vieira, a falta de registro formal é um entrave significativo enfrentado por muitos produtores, tornando-os “invisíveis” para o acesso a políticas públicas e sistemas financeiros. “Arrendatários e membros de grupos familiares são essenciais para a produção e geração de empregos, mas frequentemente não possuem o registro rural formalizado, o que dificulta o acesso a crédito em condições favoráveis”, aponta.
Os produtores de médio porte, por sua vez, se veem em uma posição complicada. Eles não se qualificam para políticas destinadas a pequenos produtores e carecem da estrutura dos grandes grupos econômicos. Isso os torna mais suscetíveis a oscilações de mercado, desastres climáticos e aumento de custos, restringindo também a capacidade de renegociação durante crises financeiras.
Recomendações para Mitigação da Crise
Vieira defende que a renegociação das dívidas com instituições financeiras é crucial para enfrentar a crise financeira no curto prazo. Ele sugere a utilização de ferramentas do crédito rural, como o alongamento de prazos e adequação das operações às linhas de crédito que sejam compatíveis com o perfil produtivo, como o Pronaf e o Pronamp. “Além disso, o fortalecimento do cooperativismo e associações pode aumentar o poder de negociação e facilitar o acesso a assistência técnica e financeira”, complementa.
A Faern está ativamente buscando parcerias com o sistema financeiro e o Governo Federal para ampliar o acesso ao crédito, a fim de reduzir vulnerabilidades e garantir condições mais sustentáveis para os negócios rurais no RN.
Panorama da Inadimplência no Brasil
Um levantamento da Serasa Experian indica que a inadimplência rural no Brasil está, em sua maioria, concentrada em dívidas com instituições financeiras, que totalizaram 7,3% no terceiro trimestre de 2025. A dívida média é de R$ 130,3 mil. Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa, ressalta que o perfil do crédito rural, que apresenta montantes altos e prazos longos, implica que poucos inadimplentes concentrem dívidas substanciais, o que aumenta o risco financeiro, mesmo em um contexto de taxa controlada.
A análise por faixa etária mostra que a população rural acima de 80 anos possui a menor taxa de inadimplência. Já os jovens entre 30 e 39 anos lideram as taxas, com 12,7%. Em termos regionais, o Sul do Brasil apresenta a menor inadimplência (5,5%), seguido pelo Centro-Oeste (9,4%) e o Nordeste (9,7%). Entre os estados, o Rio Grande do Sul registra o menor índice, com 5,1% de inadimplência, junto com Paraná e Santa Catarina, ambos com 5,8%.
