Superando a Dor da Perda com Apoio Psicossocial
No coração da zona oeste de São Paulo, na UBS Jardim Colombo, um grupo de apoio se reúne semanalmente para enfrentar a dor do luto. Entre os participantes está Wellington Barreto dos Santos, um jovem de 25 anos que, ao escolher a música “Girassol”, de Priscilla Alcântara e Whindersson Nunes, expressa sua vontade de reencontrar a felicidade. Durante suas sessões, conduzidas pela psicóloga Pamella Becegati, ele e outros enlutados têm a oportunidade de dar voz aos seus sentimentos e compartilhar suas experiências.
Wellington, que ingressou no grupo há cerca de quatro meses após sofrer a perda de duas tias e um amigo, relata que a dor da perda gerou uma ansiedade intensa. “Uma das tias faleceu há cinco anos, e a outra eu a encontrei morta em casa. Isso foi como arrancar um pedaço do meu coração. Meu amigo morreu em um acidente, e isso me deixou devastado”, explica. Ele revela que, antes de entrar no grupo, se sentia isolado e trancado em seu próprio mundo. “Aqui, encontrei apoio e passei a enxergar a vida de maneira diferente. Hoje, consigo recordar os momentos que tive com essas pessoas sem o temor das crises de ansiedade”, compartilha.
Segundo a psicóloga Pamella, a música serve como um poderoso meio de reflexão durante as sessões. “A música provoca lembranças e emoções. Perguntamos: que memórias surgem? Como cada um se sente ao ouvir determinada canção?”, explica. O processo de luto é complexo, englobando reações emocionais, físicas e comportamentais. Em 2022, o Ministério da Saúde reconheceu o luto prolongado como um transtorno mental, destacando a importância de apoio psicológico para aqueles que enfrentam essa situação.
Uma Rede de Apoio para o Luto
A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo oferece atendimentos dedicados a quem precisa de suporte psicológico durante o luto. A orientação é que as pessoas que passam por essa fase busquem acolhimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Os atendimentos podem ser realizados individualmente, quando há necessidade de acompanhamento mais intensivo, ou em grupos de adultos, como os da UBS Jardim Colombo.
As equipes que atendem nessas unidades são formadas por profissionais de diversas áreas, incluindo assistentes sociais, que auxiliam no encaminhamento dos participantes para outros serviços da rede municipal. Massumi Hirota Tunkus, de 65 anos, estava há 18 anos sem conseguir processar o luto pela morte de seu marido. “Fui estagnada por causa das preocupações com meus filhos e minha mãe, que teve um AVC na véspera do meu casamento. Cheguei ao grupo há três meses e encontrei uma família. Aqui, ninguém me julga. Todos estamos juntos nessa”, afirma.
Solange Maria de Assunção Modesto, 61 anos, ainda se recupera da perda da irmã, que faleceu devido a complicações de um transplante de medula óssea. “Eu ainda estou sem chão, tentado recompor a minha vida. Participar do grupo de apoio me proporciona uma troca de experiências que me fortalece”, diz. Durante as sessões, os participantes realizam atividades, como segurar pinhas de eucalipto, que servem como metáforas para suas emoções e desafios.
Dinâmicas Terapêuticas e Suporte Emocional
Maria Neuza Ferreira da Silva, com 71 anos, também frequenta as reuniões e compartilha sobre a depressão que a acometeu após a morte de seu marido. “Minha mãe ficou em um estado crítico após perder meu padrasto. A terapia ajudou não só a mim, mas também a ela. Após três meses, ela já começou a sair sozinha para fazer compras e se reerguer”, comenta sua filha, Leirilene Ferreira da Silva, de 50 anos.
Os encontros, que contam com cerca de dez participantes, ocorrem todas as segundas-feiras e têm duração de aproximadamente 50 minutos. Pamella destaca que o objetivo das sessões é promover a conexão entre os participantes e proporcionar um espaço seguro para a elaboração do luto. Dinâmicas variadas, como músicas e plantios, são utilizadas para facilitar essa conexão. “Gosto de incluir a prática de escrever diários, onde os participantes podem expressar o que gostariam de ter dito a quem perderam e como lidam com essa ausência”, conclui a psicóloga.
