Alternativas ao Crédito Rural Tradicional Crescem no Agronegócio
O agronegócio está encontrando novas formas de financiamento para suprir a redução das linhas tradicionais de crédito rural. Instrumentos privados, como as Cédulas de Produto Rural (CPRs), os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (fiagros) e os certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs), têm ganhado destaque. Em junho, o estoque de CPRs alcançou R$ 576,4 bilhões, representando um crescimento de 12% em um ano. Paralelamente, os saldos dos Fiagros aumentaram 81% em dois anos, enquanto os CRAs tiveram avanço de 9% no mesmo período.
Redução das Linhas de Custeio do Plano Safra
O movimento de diversificação no financiamento surge em resposta à queda da área financiada pelas linhas de custeio do Plano Safra, que recuou 25,8% em 12 meses, passando de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares entre julho de 2025 e o mesmo mês deste ano, conforme dados do Banco Central compilados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul). O volume de recursos liberados também diminuiu, de R$ 205,8 bilhões para R$ 181,1 bilhões, uma retração de 12%. O número de contratos caiu 10,3%, de 867 mil para 777,8 mil.
Apesar da redução na área e no número de contratos, o financiamento médio por hectare aumentou, passando de cerca de R$ 6 mil para R$ 7,1 mil, o que indica que o crédito disponível acompanha, ainda que parcialmente, o aumento dos custos de produção.
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Funcionamento e Limitações das CPRs
As CPRs possibilitam que o produtor rural obtenha recursos com base na produção futura, com pagamento feito em produto ou em dinheiro. Esse título pode ser negociado com instituições financeiras, cooperativas, tradings, fornecedores e investidores, ampliando as opções além das linhas oficiais de crédito. Durante a safra 2025/26, as emissões de CPRs somaram R$ 377,8 bilhões. Apesar do crescimento do estoque, houve desaceleração nas novas operações, refletindo os impactos dos juros elevados e a maior cautela dos financiadores.
Desafios para Pequenos e Médios Produtores
O acesso ao financiamento privado ainda é desigual. Grandes produtores, cooperativas e empresas com maior capacidade de garantia conseguem acessar o mercado privado com mais facilidade. Em contrapartida, pequenos e médios agricultores permanecem mais dependentes dos bancos tradicionais, cooperativas de crédito e das linhas subsidiadas do Plano Safra.
Outro aspecto relevante é o aumento das operações rurais com algum grau de dificuldade. Em julho, 23,5% da carteira ativa, totalizando R$ 207,5 bilhões, estava classificada como problemática, incluindo contratos em atraso, renegociados ou prorrogados. Para se adequar às regras da Resolução 4.966 do Conselho Monetário Nacional (CMN), em vigor desde janeiro de 2025, as instituições financeiras adotaram maior prudência, ampliando as reservas diante da identificação de riscos na capacidade de pagamento dos produtores.
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Contexto Regional e Perspectivas
No Rio Grande do Sul, as perdas climáticas consecutivas aumentaram o endividamento e contribuíram para a queda de 29,3% na área financiada. O valor contratado caiu 18,3%, para R$ 23,1 bilhões, e o número de operações diminuiu 16,4%, chegando a 189,6 mil contratos.
Apesar da retração recente no crédito, a produção, as exportações e os preços dos alimentos seguem sustentados por lavouras financiadas anteriormente. Os efeitos mais profundos dessa redução serão percebidos com maior clareza durante a safra 2026/27.
O crescimento das CPRs, CRAs e Fiagros demonstra que o setor agrícola tem ampliado suas fontes de recursos, diversificando o financiamento da produção e reduzindo a dependência do Plano Safra. Contudo, essas alternativas ainda não substituem completamente o crédito bancário, principalmente para os produtores de menor porte.
