Diferenças na resposta humanitária dos EUA entre Haiti e Venezuela
Em 2010, quando um terremoto devastador atingiu o Haiti, os Estados Unidos lideraram uma operação de ajuda de grande escala, mobilizando mais de US$ 3 bilhões — cerca de R$ 15 bilhões na época —, enviando 7.000 soldados e suspendendo as deportações de haitianos para o país atingido. Esse esforço supera em muito a assistência que Washington ofereceu à Venezuela, também devastada por um desastre natural, mas que recebeu menos de 4% desse montante.
Até o momento, os EUA destinaram cerca de US$ 300 milhões — pouco mais de R$ 1 bilhão — para ajuda à Venezuela, com uma força militar reduzida, de aproximadamente 900 soldados, e sem anunciar suspensão das deportações de venezuelanos. Essas diferenças refletem mudanças na abordagem americana e distintas realidades políticas e econômicas entre os dois países.
Contexto político e econômico influencia assistência dos EUA
Enquanto o Haiti mantém índices de pobreza extremos e um número de vítimas muito superior ao do terremoto venezuelano, a resposta americana também é condicionada por mudanças institucionais recentes. A administração Trump, que assumiu o governo dos EUA em 2017, desmantelou a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), principal órgão responsável pela distribuição de ajuda externa, e reduziu significativamente a assistência a países em desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, a Venezuela, que há uma década era um dos maiores doadores regionais de ajuda humanitária, viu sua economia entrar em colapso, o que transformou o país em um dos maiores receptores de assistência internacional. Em 2010, Caracas contribuía com alimentos, remessas emergenciais de petróleo e perdão de dívidas para países como o Haiti, numa estratégia que contrastava com a política americana, que centralizava a ajuda via Usaid.
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Fonte: bh24.com.br
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Fonte: soupetrolina.com.br
Estratégia atual dos EUA na Venezuela e o papel do petróleo
O governo Trump tem priorizado intervenções imediatas, como operações de busca e salvamento, além de buscar estabilizar a situação política, considerando a Venezuela um Estado com recursos petrolíferos estratégicos. Em janeiro deste ano, após a captura do líder venezuelano, Trump anunciou o controle sobre o petróleo do país e supervisiona bilhões em vendas desse recurso.
Apesar da crise provocada pelo terremoto, autoridades americanas afirmam que a produção petrolífera venezuelana não foi afetada e que investimentos para ampliar a extração continuam em andamento, envolvendo empresas privadas e aportes dos EUA. A maior parte da ajuda humanitária, os US$ 300 milhões anunciados, é canalizada por organizações como a Cruz Vermelha, entidades religiosas e as Nações Unidas, uma estratégia diferente do modelo centralizado da Usaid.
Impactos e desafios da ajuda internacional na Venezuela
John Barrett, principal diplomata americano na Venezuela, destacou que o governo dos EUA pretende manter o engajamento na recuperação do país enquanto for necessário, com foco em necessidades essenciais como abrigo, remoção de escombros, abastecimento de água e geração de energia elétrica. Contudo, a orientação política para usar receitas do petróleo como base para a reconstrução econômica permanece inalterada, mesmo diante do desastre natural.
Especialistas apontam que o montante de US$ 300 milhões é modesto frente às receitas geradas pelo petróleo venezuelano, que estão sob controle americano. Javier Corrales, professor de ciência política, observa que a ajuda americana tende a ser condicionada a interesses econômicos, destacando uma lógica de retorno financeiro das ações internacionais.
Experiências passadas e lições do Haiti
A experiência do Haiti após o terremoto de 2010 demonstra que volume elevado de ajuda não garante sucesso na recuperação. Projetos da Usaid, como construção de usinas, modernização portuária e desenvolvimento de força policial, enfrentaram atrasos, custos superiores e reduções significativas. A corrupção e a instabilidade política no Haiti dificultaram reformas institucionais essenciais para a reconstrução.
Além disso, a presença das forças de paz da ONU no Haiti acabou provocando um surto de cólera que causou cerca de 10 mil mortes, alimentando um sentimento antiajuda na população. Durante a campanha presidencial de 2016, Donald Trump criticou os Clintons por suposto lucro nas operações de ajuda ao Haiti, acusação rejeitada por ambos.
Perspectivas para a ajuda à Venezuela
Enquanto os venezuelanos enfrentam as consequências do terremoto e a devastação do país, o legado da resposta aos desastres no Haiti permanece como um alerta para os esforços atuais. Ex-funcionários da Usaid destacam que a ajuda humanitária nos EUA foi mais intensa e abrangente em 2010, em contraste com a abordagem seletiva adotada pelo governo Trump, que vincula a assistência a objetivos políticos e econômicos específicos.
O desafio agora é garantir que os recursos destinados à Venezuela sejam efetivamente aplicados na recuperação estrutural e social do país, minimizando impactos negativos e atendendo às demandas da população em meio a um cenário de crise múltipla. O próximo passo no processo será acompanhar a evolução dos projetos de reconstrução e a gestão das receitas petrolíferas sob controle americano, que definirá os rumos da assistência e da estabilidade no país.
