Concorrência Internacional e Desafios do Setor
A produção de alho no Brasil inicia um novo ciclo de desafios, refletindo em uma significativa queda no volume produzido. A Associação Nacional dos Produtores de Alho projeta uma redução entre 15% e 20% na área plantada até 2026. Este cenário preocupante surge após um ano de excessos, onde a oferta elevada resultou em preços baixos e prejuízos para os agricultores.
O principal culpado por essa situação é a concorrência externa. Em 2025, a entrada de alho argentino no mercado brasileiro, sem tarifas devido às regras do Mercosul, aumentou a oferta interna e pressionou os preços. Em resposta, a associação está se preparando para solicitar uma investigação por dumping em maio, alegando que o alho está entrando no país a preços inferiores ao custo de produção.
Dependência do Mercado Argentino
Essa pressão acontece em um contexto já marcado por desequilíbrios. Nos últimos dez anos, aproximadamente 70% da produção argentina de alho foi destinada ao Brasil, evidenciando a dependência do nosso país em relação ao consumo do alho importado. Além disso, a competitividade do alho chinês, que é comercializado a preços ainda mais baixos, tem agravado o excesso de oferta e dificultado ainda mais a situação dos produtores nacionais.
As consequências já são visíveis nas principais regiões produtoras. Em Santa Catarina, um tradicional polo da cultura, estima-se que até 60% da safra possa se tornar inviável nas condições atuais. Esse cenário é preocupante, pois ameaça milhares de empregos e já gera dificuldades financeiras em municípios que dependem fortemente da atividade agrícola.
Impacto Econômico e Custos de Produção
A cadeia produtiva do alho movimenta cerca de R$ 7 bilhões anualmente e oferece aproximadamente 300 mil empregos diretos e indiretos no Brasil. São cerca de 40 mil produtores envolvidos, em sua maioria agricultores familiares. A situação se torna ainda mais crítica quando se considera que os custos de produção permanecem como um dos principais obstáculos à competitividade do alho brasileiro.
O cultivo de alho demanda mão de obra intensiva e um elevado uso de tecnologia, com investimentos que podem ultrapassar R$ 120 mil por hectare. Os principais gastos estão relacionados a sementes, insumos, irrigação, energia e beneficiamento. Em contraste, países como a Argentina possuem condições climáticas mais favoráveis e menor necessidade de tecnificação, o que resulta em custos mais baixos e, consequentemente, uma vantagem competitiva.
Produção e Inovações no Setor
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil produziu 172,8 mil toneladas de alho em 2024, utilizando uma área de 12,8 mil hectares, com um valor de produção estimado em R$ 2,41 bilhões. No entanto, o país ainda depende da importação de cerca de um terço do seu consumo interno, que é estimado em 360 mil toneladas por ano.
Especialistas do setor afirmam que, apesar das dificuldades, os avanços tecnológicos têm contribuído para aumentar a produtividade nos últimos anos. Técnicas como vernalização e o uso de sementes livres de vírus têm possibilitado médias de até 16 toneladas por hectare. Contudo, o custo de produção continua sendo um desafio para competir com os produtos importados.
Perspectivas Futuras
Com o plantio avançando nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste e prestes a começar no Sul, o setor de alho enfrenta um momento decisivo. A abertura de uma investigação antidumping pode mudar as condições do mercado nos próximos meses. Até lá, os produtores se veem pressionados por preços baixos e margens de lucro cada vez mais estreitas.
