Censura em Exposição de Arte
O artista José Lisbran levantou preocupações sobre censura ao relatar a retirada de uma de suas obras da exposição coletiva no Museu do Morro da Caixa D’Água Velha, em Cuiabá. O evento, que ocorreu na última sexta-feira (10), conta com a participação de artistas visuais de diversas correntes e estilos. Em um vídeo compartilhado em suas redes sociais, Lisbran menciona que um representante da Secretaria Municipal de Turismo foi responsável pela decisão de impedir a exibição de sua tela, que representa uma adolescente americana de 17 anos confrontando soldados com uma flor nas mãos, uma imagem emblemática ligada ao protesto contra a guerra do Vietnã, em 1967.
“É inadmissível que o Estado decida o que o cidadão pode ou não refletir dentro de um museu, especialmente quando o tema é a paz mundial. Na minha arte, tento mandar uma mensagem ao mundo. Se a paz incomoda os governantes, é sinal que a sociedade precisa dela mais do que nunca”, desabafou Lisbran, ressaltando a importância da liberdade de expressão na arte.
No mesmo vídeo, o artista descreve o episódio como “lamentável” e expressa sua profunda frustração diante da falta de compreensão do poder público em relação à arte. Ele questiona quais razões levaram à solicitação da retirada de sua obra, enfatizando que a arte deve ser um espaço para reflexão e questionamento, incluso quando provoca discussões sobre temas delicados como violência, guerra e desigualdade social.
A Obra e Seus Significados
Lisbran explicou ao Primeira Página que sua obra “Somos todos iguais! Peace in the world” foi retirada por conter representações de armas e pombas brancas. De acordo com os argumentos apresentados pelos responsáveis pela retirada, a obra teria um caráter político, algo que o artista contesta. “Não tem nada a ver com política. Nas minhas telas Onças na Cidade, eu busco transmitir mensagens universais. A pele da onça é um símbolo da nossa regionalidade no Pantanal, mostrando a força e a beleza desse felino. Além disso, a pele de onça nas pessoas reflete a selvageria que ainda presenciamos na sociedade, evidenciada pela guerra e pela fome”, esclareceu.
A inspiração para a criação da tela veio de uma célebre fotografia do fotógrafo francês Marc Riboud. A imagem captura o momento histórico em que a jovem Jan Rose Kasmir coloca uma flor na boca de uma arma de um soldado da Guarda Nacional durante um protesto pacífico contra a guerra do Vietnã, em Washington, D.C., em 21 de outubro de 1967. Naquela ocasião, cerca de 100 mil pessoas se reuniram para manifestar contra o conflito, demonstrando a força da luta pelos direitos humanos e pela paz.
Riboud, conhecido por sua sensibilidade ao documentar a vida cotidiana em cenários de guerra, fez diversas visitas ao Vietnã entre 1966 e 1976, capturando a luta e a resiliência dos aldeões e refugiados em meio à devastação.
Buscando Respostas da Secretaria Municipal
A equipe do Primeira Página procurou um posicionamento da Secretaria Municipal de Turismo de Cuiabá, em busca de esclarecimentos sobre a situação envolvendo a obra de Lisbran. Contudo, até o fechamento desta reportagem, não houve retorno da assessoria. O espaço permanece aberto para uma resposta oficial, considerando a relevância do diálogo sobre a liberdade de expressão e o papel da arte em nossa sociedade.
