Ouro em Cuiabá: Uma História VIVA
Desde sua fundação, há 307 anos, Cuiabá tem uma ligação intrínseca com a exploração do ouro, um dos metais mais valorizados do mundo. Porém, a interrogação que paira sobre a cidade é: ainda há ouro em seu solo? Essa dúvida motivou Eliston Guarda, um morador de Sapezal, a se aventurar na capital para investigar pessoalmente.
Eliston, de 36 anos, que atua como analista de sistemas e vereador, frequenta Cuiabá para visitar amigos e familiares. Durante uma de suas passagens pela Avenida Miguel Sutil, avistou veios de quartzo em um paredão à margem da pista, o que despertou sua curiosidade. “Na primeira oportunidade, decidi parar, gravar um vídeo e coletar amostras”, diz ele. Fascinado pela história, Eliston recorda que muitas crianças costumavam buscar pepitas depois da chuva para trocar por brinquedos.
Determinando-se a descobrir se ainda havia ouro na cidade, Eliston publicou um vídeo em sua rede social com fragmentos do minério que encontrou e separou manualmente em casa. Com mais de 200 mil visualizações, ele virou um verdadeiro explorador, realizando pequenas escavações ao redor do viaduto que cruza a Avenida do CPA.
“As pessoas que passam pelo centro da cidade estão, na verdade, trafegando sobre uma riqueza enorme. É fascinante”, afirma o vereador, que agora planeja continuar produzindo conteúdos sobre suas descobertas após receber convites para explorar outros locais da região.
Um Hábito que Virou Paixão
Eliston não é nenhum novato nesta busca. Praticante do detectorismo há cinco anos, ele começou sua jornada em Aracaju, onde procurava objetos perdidos na praia, realizando mais de 40 resgates. Seu retorno a Mato Grosso em 2024 reacendeu seu interesse pela mineração.
“Acompanho mineradores e entusiastas do garimpo nas redes sociais. Este tipo de conteúdo é muito atrativo, especialmente para a comunidade que tem interesse na história de Cuiabá”, comenta. Ao longo dos meses, seguidores de suas postagens apontaram diversos outros locais onde acreditam haver ouro, incluindo o Bosque da Saúde e áreas adjacentes.
A Herança do Ouro em Cuiabá
Embora a extração de ouro hoje não seja uma prática comum na capital, seu impacto histórico foi profundo. Francisco das Chagas, um memorialista local, explica que a fundação de Cuiabá foi inicialmente motivada pela exploração de riquezas naturais e pela escravização de indígenas. A primeira mina registrada foi no rio Coxipó, onde os bandeirantes descobriram grandes quantidades de ouro, o que levou à elevação da cidade como uma vila importante.
“O ouro extraído foi, na maioria, enviado à Coroa Portuguesa, mas deixou marcas profundas na cultura e na arquitetura da cidade”, acrescenta Francisco. Para ele, as construções e as ruas da cidade ainda falam da era dourada que a precedeu.
Geologia Favorável à Mineração
A formação geológica de Cuiabá tem grande relevância na presença de ouro na região. O geólogo Caiubi Emanuel Souza Kuhn, presidente da Federação Brasileira de Geólogos, explica que o ouro se formou a partir de processos geológicos complexos e que ainda existem reservas não exploradas. “A mineração de ouro no Brasil ainda é uma atividade importante, tanto para a indústria quanto para a tecnologia”, assegura.
Atualmente, a Agência Nacional de Mineração (ANM) estima que a mineração represente entre 1% e 2% do PIB da cidade. Apesar da queda na exploração ao longo dos anos, o preço do ouro, que atualmente gira em torno de R$ 798,39 por grama, tem incentivado a reabertura de áreas que antes eram consideradas inviáveis, destacando a importância econômica contínua dessa atividade.
Desafios e Sustentabilidade na Mineração
Embora a mineração traga benefícios econômicos, ela também gera desafios. O uso inadequado de mercúrio e os impactos ambientais têm gerado preocupações, resultando em ações por parte de órgãos reguladores como a ANM e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT). A analista Sheila Klener destaca a importância do licenciamento ambiental para evitar a degradação dos recursos naturais.
“A atividade mineradora precisa seguir regras que protejam o meio ambiente e a saúde da população. É crucial que os empreendimentos sejam regulamentados”, finaliza. O futuro da mineração em Cuiabá, assim, está em constante adaptação, buscando um equilíbrio entre exploração e sustentabilidade.
