Heranças e Desafios da Cultura Popular
Antonia de Figueiredo Curado, conhecida como “Dona Sinhá”, é uma figura emblemática na cultura popular brasileira. Desde antes de nascer, os sons da viola de cocho ecoavam em sua vida, uma herança musical transmitida por seu pai cururueiro e sua mãe siririzeira. A mestra aprendeu a tocar e a construir o instrumento, assim como sua contemporânea, Maria Cecília de Morais, que encantava seus pequenos aprendizes da cultura popular. Juntas, Dona Sinhá e Cecília cresceram imersas nas danças e cantos do cururu e siriri, tradições passadas de geração a geração, mesmo enfrentando o preconceito que permeia esse universo.
Ambas as mestras enfrentaram dificuldades para se afirmarem em um ambiente predominantemente masculino. Cecília recorda com tristeza: “Antigamente, a gente não podia cantar. Quando tentávamos, papai corria atrás de nós”. Dona Sinhá complementa que, ao longo dos anos, as mulheres foram ganhando espaço, ainda que de forma lenta e gradual. A realidade atual continua a exigir resistência, já que a viola de cocho e o cururu permanecem ocupados, em sua maioria, por homens. Elas são integrantes da Associação das Manifestações Folclóricas de Mato Grosso (AMFMT) e ainda lidam com olhares desconfiados de quem não acredita que mulheres possam ser cururueiras.
O Perigo da Desconexão Cultural
Apesar do avanço na aceitação da presença feminina na viola de cocho, Dona Sinhá e Cecília compartilham uma preocupação: as novas gerações parecem desinteressadas em manter viva essa tradição. “Os cururueiros estão diminuindo, e a juventude não quer. Muitos já passaram pela AMFMT, mas não continuam”, lamenta Dona Sinhá, refletindo sobre a dificuldade de engajar a garotada. As influências de novos ritmos, como o pagode e o funk, atraem a atenção dos jovens, tornando a cultura popular uma lembrança distante.
Maria Cecília aponta o resgate de músicas de fora como uma das razões para essa desconexão. “Eles estão absorvendo ritmos diferentes, como o samba. Meu neto, por exemplo, é cantor de pagode”, diz a mestra, sinalizando um desvio dos costumes que um dia foram parte essencial da identidade familiar.
Transmitindo a Tradição da Viola de Cocho
Dona Sinhá, determinada a garantir a continuidade da tradição, ensina seus netos, Pietro e Brian, de 10 anos, e Isaura, de 12. Eles frequentam a AMFMT e, sob a orientação da avó, aprendem sobre a rica cultura popular. Contudo, são os únicos da família a mostrar verdadeiro interesse pela herança cultural. Enquanto Dona Sinhá tenta transmitir suas habilidades aos descendentes, o entusiasmo não é compartilhado por seus filhos e outros familiares, que não se deixam encantar pela arte da viola.
Maria Cecília, aos 65 anos, também busca perenizar a tradição, ensinando sua bisneta, Luna, de apenas 4 anos. A cada quinta-feira, reúne-se com cerca de 40 crianças na AMFMT, onde compartilha seu conhecimento sobre a musicalidade local, incluindo o cururu e o siriri, além de ensinar a tocar instrumentos como a viola e o ganzá.
Conexões Espirituais e Desafios Religiosos
A religiosidade também permeia as rodas de siriri e cururu, com uma forte ligação às festividades católicas. Maria Cecília, que se identifica como evangélica, enfrenta um dilema ao conciliar sua fé com a tradição. Ela revela que sua prática na associação não é aprovada pela sua igreja, que considera a veneração de santos como idolatria. “Eu já avisei na igreja que participo dessa tradição, mas eles não aceitam”, conta. Mesmo assim, continua a dançar e cantar, buscando respeitar sua fé e suas raízes culturais.
Dona Sinhá, por sua vez, mantém sua devoção aos santos católicos, apesar de não conseguir ir à missa com a mesma frequência de antes. Para ela, a prática religiosa e a tradição cultural estão intimamente ligadas. Há seis décadas, Dona Sinhá criou a festa “Fé e Tradição” em sua casa, onde a comunidade se reúne para celebrar a fé e a cultura. “O cururu, para mim, é a melhor coisa da minha vida. Eu respeito e não quero que acabe essa cultura”, afirma emocionada.
O Legado de Dona Sinhá e Maria Cecília
O futuro da viola de cocho e das tradições do cururu e siriri ainda é incerto. Tanto Dona Sinhá quanto Maria Cecília sentem que a cultura que tanto amam está enfrentando desafios significativos. O tempo em que apresentações eram frequentes e o entusiasmo era palpável parece ter ficado para trás. “Antes, eu fazia tantas apresentações em Cuiabá que mal terminava uma e já ia para outra. Hoje, estamos parados”, lamenta Cecília, refletindo sobre a transformação da cena cultural local.
Por meio de suas histórias e experiências, ambas mestras buscam não apenas preservar uma tradição, mas também fortalecer os laços familiares e comunitários. O legado que deixarem pode ser a chave para assegurar que as novas gerações se reconectem com suas raízes. Assim, mesmo em tempos de mudança, a esperança de que a viola de cocho continue ecoando nas futuras gerações se mantém viva.
