Crime Organizado no Campo: Uma Nova Ameaça ao Agronegócio
A presença do crime organizado no agronegócio brasileiro transcende a mera criminalidade local e se torna uma preocupação que abala a competitividade do setor. De acordo com dados recentes, o agronegócio representa entre 22% e 25% do PIB nacional, evidenciando o potencial atrativo para as organizações criminosas.
Um estudo inovador realizado pelo Insper Agro Global expõe como facções criminosas, como o PCC e o CV, estão se infiltrando em toda a cadeia produtiva do agronegócio, desde a aquisição de insumos até a comercialização de commodities. A pesquisa indica que essa infiltração representa uma nova frente de risco estratégico, exigindo atenção redobrada dos envolvidos no setor.
Tradicionalmente, os produtores rurais brasileiros lidavam com crimes pontuais, como furtos e assaltos. Contudo, essa realidade mudou drasticamente. O crime organizado que movimenta toneladas de drogas pelo Atlântico Sul agora se estabeleceu no campo, tornando-se uma presença constante e alarmante.
Vulnerabilidades Estruturais Atraindo Criminosos
O estudo destaca que o crime se infiltra onde há recursos financeiros em jogo. Com R$ 2 trilhões gerados anualmente pelo agronegócio e sua significativa contribuição para as exportações e empregos, a combinação de vulnerabilidades estruturais no setor agrário se torna um convite para o crime organizado.
Dentre os fatores que favorecem essa situação, estão as fronteiras porosas do Brasil, a fragmentação da fiscalização entre os estados e as cadeias produtivas longas e opacas, que oferecem oportunidades diversas para as ações criminosas. Além disso, a subnotificação de delitos cria um cenário onde os números reais do ilícito são, provavelmente, muito mais altos do que se imagina.
Números Alarmantes e a Realidade Desconhecida
O impacto econômico causado por esses crimes é extenso. Estima-se que R$ 20 bilhões em defensivos agrícolas ilegais circulam anualmente no Brasil, além de R$ 10 bilhões em sementes piratas, especificamente na soja. As fraudes de combustíveis ligadas ao agronegócio chegam a R$ 52 bilhões, e R$ 2,2 bilhões foram documentados apenas em perdas por incêndios criminosos em 2024.
Entretanto, muitos especialistas alertam que essas cifras podem ser subestimadas. O professor Leandro Piquet Carneiro, por exemplo, enfatiza a falta de metodologias robustas para mensurar o crime organizado no campo, indicando que a real dimensão do problema ainda está por ser descoberta.
Operações Criminosas e a Indústria do Crime
Durante o evento no Insper, o promotor de Justiça Adriano Melega apresentou detalhes sobre a complexidade das operações criminosas. A região de Franca, por exemplo, é um dos maiores centros de falsificação de defensivos agrícolas do Brasil. O crime, que antes poderia ser visto como um ato isolado, agora opera de forma industrial, com estruturas organizadas que incluem núcleos gráficos, contábeis e logísticos.
Além disso, o jornalista investigativo Marcelo Godói ressaltou que facções criminosas, como o PCC, não só atuam no tráfico de drogas, mas também no agronegócio, usando o campo como uma arena para lavagem de dinheiro e comercialização de produtos ilícitos. Essa dinâmica torna ainda mais urgente a necessidade de um controle eficaz sobre a origem dos insumos e produtos agrícolas.
Desafios e Oportunidades no Agronegócio
Os debates no evento também abordaram as implicações geopolíticas da atuação do crime organizado no agronegócio. A crescente pressão internacional para garantir a rastreabilidade das commodities brasileiras pode criar um cenário complicado para as empresas que não estiverem preparadas para demonstrar a origem legítima de seus produtos.
O fortalecimento da colaboração entre setores público e privado é apontado como uma solução viável. Exemplos de cooperação bem-sucedida foram discutidos, como iniciativas de compartilhamento de informações e ações rápidas para conter a operação criminosa.
As recomendações para os produtores incluem o investimento em processos de due diligence e o engajamento em discussões sobre a criação de uma agência nacional de inteligência criminal. É vital que o agronegócio brasileiro não apenas reconheça esse desafio, mas também tome medidas proativas para combatê-lo.
A Necessidade de uma Resposta Coletiva
Concluindo o evento, os especialistas enfatizaram que o crime organizado no agronegócio não é um problema restrito às forças policiais locais. Trata-se de uma ameaça que compromete a segurança, a reputação e a soberania do país. A construção de uma resposta sistêmica requer a união de todos os setores envolvidos, de autoridades a acadêmicos, para garantir a proteção do agronegócio e a integridade do mercado nacional.
