Desafios Logísticos Impactam a Competitividade da Soja em Mato Grosso
Os produtores de soja em Mato Grosso enfrentam um cenário desafiador nesta safra, marcado por custos logísticos elevados e uma previsibilidade reduzida no escoamento da produção. No corredor de exportação que conecta o estado ao distrito de Miritituba, no Pará, dificuldades de acesso e saturação operacional têm prolongado o tempo de deslocamento, encarecendo o transporte e, consequentemente, afetando a competitividade do setor.
A movimentação na rota que liga a BR-163 ao sistema portuário teve um crescimento significativo, com a expectativa de alcançar cerca de 15,3 milhões de toneladas em 2025, representando um aumento de 24,6% em relação a 2024. No entanto, esse crescimento ocorre em um contexto que ainda enfrenta restrições operacionais, que reduzem a eficiência do transporte exatamente nos períodos de maior volume de embarques.
Essa pressão operacional já se reflete nos preços do frete, que impactam diretamente as margens dos produtores, especialmente em um momento em que os preços internacionais estão em queda. A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) destaca a urgência de melhorias na infraestrutura e na previsibilidade logística para aliviar essa situação.
Embora melhorias estruturais estejam em andamento, com um novo acesso pavimentado em construção e previsão de conclusão para novembro de 2026, a situação atual ainda demanda atenção. O sistema de transporte permanece vulnerável ao alto volume de caminhões e às limitações físicas dos trechos que dão acesso aos terminais.
Ilson José Redivo, vice-presidente norte da Aprosoja MT, ressalta que o aumento na produção não foi acompanhado de melhorias na infraestrutura. “Apesar do crescimento contínuo da produção, as condições das rodovias continuam deterioradas. Existem trechos de acesso que não possuem asfalto, e, em períodos chuvosos, caminhões enfrentam dificuldades, formando filas que ultrapassam 30 quilômetros”, comenta.
Os custos logísticos, que atualmente giram em torno de R$ 20 por saca entre Sinop (MT) e Miritituba (PA), têm comprometido a rentabilidade dos produtores. Com a soja sendo comercializada próxima de R$ 106 bruto, e menos de R$ 100 líquidos após encargos, as margens tornam-se cada vez mais estreitas, como enfatiza Redivo. Além disso, a capacidade de armazenamento do estado é limitada, estimada em apenas 52% do volume produzido, o que pressiona a necessidade de escoamento acelerado.
Outra produtora, Katia Hoepers, do município de Santa Rita do Trivelato, também aponta que a estrutura deficiente nos pontos de recebimento e altos custos operacionais, como o do diesel, impactam a rentabilidade. “A falta de estrutura no porto de Miritituba resulta em congestionamentos, e a expansão das áreas plantadas não foi acompanhada por um aumento correspondente na capacidade de armazenamento, levando a filas longas nas tradings durante a colheita”, explica.
No dia a dia da operação, as dificuldades logísticas se tornam mais palpáveis. A incerteza em relação aos prazos de entrega e os custos elevados alteram decisões de manejo, armazenamento e comercialização, aumentando os riscos para a qualidade do produto até sua chegada ao porto.
Mateus Berlanda, produtor na região de Alta Floresta, relata que as dificuldades começam já nas estradas regionais. “Nossa região enfrenta chuvas intensas e solos argilosos, dificultando o tráfego. Existem muitos trechos de estrada de chão, além de pontes e bueiros danificados. Em períodos críticos, os caminhões não conseguem avançar”, explica. Ele acrescenta que, mesmo ao conseguir transportar a produção, enfrentam filas de até quatro dias nos armazéns, reflexo da capacidade limitada e da pressão logística na região.
Após cada safra, a expectativa do setor produtivo é que a conclusão do novo acesso pavimentado promova maior fluidez no corredor de transporte, reduzindo o tempo de viagem e estabilizando os custos logísticos. Até que essas melhorias se tornem realidade, os produtores de Mato Grosso continuam enfrentando os impactos dos gargalos logísticos em sua competitividade no mercado internacional.
Diego Bertuol, diretor administrativo da Aprosoja MT, destaca que os agricultores contribuem com o FETHAB na esperança de que esses recursos sejam utilizados para melhorar a logística e a infraestrutura das estradas. “Apesar dos avanços promovidos pela atual gestão estadual, é necessário reavaliar o FETHAB para garantir que o produtor não continue arcando com custos sem ver resultados concretos na infraestrutura que é essencial para o escoamento da produção”, defende.
Em um contexto mais amplo, o fortalecimento de políticas públicas voltadas para a armazenagem rural é uma estratégia importante para aliviar a pressão sobre o sistema logístico. Com uma maior capacidade de estocagem nas propriedades, os produtores podem planejar melhor o escoamento e evitar a sobrecarga no transporte durante os picos de colheita, quando a demanda por frete é alta e os principais corredores de exportação ficam congestionados.
Por fim, a Ferrogrão, um projeto ainda não leiloado e que está longe de iniciar suas operações, é vista pelo setor como uma solução estratégica para os gargalos da BR-163. A transferência de parte significativa das cargas para o transporte ferroviário poderia reduzir a quantidade de caminhões nos acessos a Miritituba, aumentando a eficiência logística e aliviando a pressão sobre os corredores de exportação que levam aos portos do Arco Norte.
