O Antipetismo e o Agronegócio no Centro-Oeste
Nas últimas eleições, o agronegócio se mostrou decisivo nas votações do Centro-Oeste, onde Jair Bolsonaro conquistou 65,08% dos votos válidos em Mato Grosso, em contraste com os 34,92% de Lula. Em Sinop, os números foram ainda mais expressivos, com 76,95% para Bolsonaro e apenas 23,05% para o candidato petista. O antipetismo, fortemente arraigado na região, é sustentado por uma base eleitoral que, ao longo dos anos, se consolidou em torno do agronegócio.
Bruno Bolognesi, coordenador do Laboratório de Partidos e Sistemas Partidários da UFPR, explica que essa aversão ao PT é ligada à sua relação histórica com movimentos sociais e à agenda ambiental. Além disso, a geração de empregos promovida pelo setor agropecuário reduz a dependência da população em relação a programas de assistência social, como o Bolsa Família, uma das principais bandeiras do governo Lula.
O Contexto Regional e Seus Efeitos
No último ano, um estudo revelou que 12 estados brasileiros têm mais beneficiários de programas sociais do que trabalhadores formais, todos localizados nas regiões Norte e Nordeste. Essa realidade contrasta com a situação do Centro-Oeste, onde o agronegócio se destaca como motor econômico, refletindo diretamente nas preferências eleitorais da população.
Um membro da equipe de Lula argumenta que a ocupação das terras no Centro-Oeste é um fator que ajuda a entender a cultura da região e como isso se traduziu nas urnas. Os fazendeiros, que muitas vezes expandem suas propriedades através da apropriação de terras, tendem a se opor ao que consideram uma ameaça à sua maneira de viver, como a ampliação do combate ao trabalho análogo à escravidão.
O Impacto de Bolsonaro e o Debate sobre a Violência
Outro aliado de Lula ressalta que grupos ligados ao agronegócio encontraram em Jair Bolsonaro um apoio moral para suas ideias, especialmente em relação ao combate ao MST e às questões ambientais. Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e figura proeminente na agenda ambiental de Lula, é frequentemente vista como um símbolo das pautas que são alvo de críticas por parte de setores do agronegócio.
Felipe Nunes, cientista político e diretor da Quaest, destaca que o eleitorado que se identifica com o agronegócio representa aproximadamente 13% dos votantes. Essa parte da população possui uma cultura homogênea e, mais do que um voto contra Lula, expressa uma rejeição à cultura de esquerda, que vê com desprezo.
Cultura e Identidade do Agronegócio
De acordo com Nunes, esses eleitores são tradicionalistas, valorizam a família, têm vínculos fortes com a terra e são influenciados pela música sertaneja e pela religiosidade. Orgulham-se de pertencer a uma cultura que, ao longo do tempo, ganhou força econômica e busca cada vez mais espaço político. Seu estilo de vida inclui o consumo de caminhonetes, roupas típicas como jeans e botinas, e uma dieta que prioriza pratos tradicionais como tropeiro e carne, além de cerveja. Essa série de características contribui para a criação de um habitus distinto, que se afasta do que eles percebem como as propostas de Lula e do PT.
Com essa complexidade de fatores, a relação entre o agronegócio e a política no Centro-Oeste continua a ser uma questão central nas discussões eleitorais, especialmente em um ano tão decisivo.
