Reunião Acentua Desafios na Saúde Mental Infanto-Juvenil
A saúde mental de crianças e adolescentes se tornou o tema central da reunião ordinária da Câmara Setorial Temática (CST) da Atenção Psicossocial, realizada na manhã desta segunda-feira (23), na Assembleia Legislativa de Mato Grosso. Durante o encontro, Matheus Ricardo Souza, representante da Secretaria Municipal de Saúde, trouxe à tona a crescente demanda no município, que abrange aproximadamente 162 mil jovens de até 18 anos dentro da atenção psicossocial.
Segundo Souza, apesar de Cuiabá já atender aos critérios técnicos necessários para a ampliação da rede de Centros de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil (CAPSI), atualmente conta apenas com duas unidades dedicadas a esse público. Essa situação evidencia a urgência de expandir os serviços e implantar unidades que funcionem 24 horas, visando preencher lacunas no atendimento.
O representante explicou que, em termos técnicos, a capital poderia já ter mais unidades de CAPSI, considerando um critério que estabelece um mínimo de 70 mil habitantes por cada unidade. Atualmente, os dois CAPS existentes atendem crianças e adolescentes com idade de até 17 anos, 11 meses e 29 dias.
Em sua fala, ele ressaltou que o serviço prestado pelos CAPSI é de porta aberta, ou seja, não exige encaminhamento prévio. Todo paciente que busca ajuda é recebido e avaliado por uma equipe multidisciplinar que oferece terapias tanto individuais quanto em grupo. “É um serviço comunitário, onde todos têm voz”, destacou Souza.
Impasse nos Horários de Atendimento e Propostas de Expansão
Matheus Souza também enfatizou que, apesar de os serviços serem acessíveis, os CAPSI operam em horários limitados, o que pode resultar em lacunas no atendimento em casos de urgência fora desses horários. Nesses momentos, os pacientes são redirecionados para outras unidades de saúde. Contudo, ele mencionou a expectativa de implantação de um novo CAPSI III em Cuiabá, que funcionará 24 horas, atendendo as demandas emergenciais de forma contínua.
Além dos atendimentos clínicos, o representante sublinhou a importância de atividades terapêuticas complementares, como ações lúdicas, educativas e de arteterapia, que têm demonstrado resultados positivos no tratamento de jovens. Souza também destacou o papel essencial da família no processo de cuidado, afirmando que a atenção psicossocial deve ultrapassar as unidades de saúde e envolver toda a rede de apoio social.
Por fim, ele reafirmou que o objetivo do atendimento não é a institucionalização dos pacientes, mas sim garantir a sua reintegração ao convívio social. “O cuidado precisa ocorrer na comunidade, com a participação das famílias e da sociedade, para que crianças e adolescentes possam se desenvolver de forma saudável”, concluiu.
Demandas Emergenciais e Expectativas Futuras
O deputado Carlos Avallone (PSDB) destacou que a atuação da CST tem se concentrado em ouvir as demandas e buscar soluções viáveis. De acordo com ele, existe um esforço contínuo de articulação para garantir recursos, contando com o apoio do Ministério Público Estadual (MPE) e do governo do estado, que têm acolhido as propostas e contribuído para o progresso das iniciativas na área.
Apesar dos avanços na estruturação dos serviços, Avallone alertou para a urgência de respostas imediatas, principalmente diante das dificuldades enfrentadas por famílias que não conseguem acesso a atendimentos adequados. O deputado reconheceu que, embora haja promessas de serviços no papel, na prática, persistem falhas que causam angústia, sobrecarregando instituições como a Defensoria Pública. Ele reconheceu também os progressos alcançados, mas reforçou a importância de garantir soluções mais ágeis e eficazes para a população.
Denis Thomaz Rodrigues, defensor público de Cuiabá, destacou as falhas no atendimento à saúde mental de crianças e adolescentes, enfatizando a falta de protocolos padronizados nas unidades básicas de saúde. Segundo ele, ao contrário de áreas como o tratamento do câncer, onde existem fluxos claramente definidos, os casos de surtos e transtornos mentais ainda dependem da condução individual dos profissionais ou da organização interna de cada unidade. Para Rodrigues, a criação de protocolos claros e o treinamento adequado das equipes poderiam minimizar falhas e acelerar o atendimento.
Rodriguez também criticou a falta de articulação entre os órgãos públicos, afirmando que problemas simples acabam se agravando, gerando altos custos ao Estado. Ele mencionou que a Defensoria frequentemente precisa recorrer à judicialização para garantir atendimentos, o que aumenta os custos de serviços que poderiam ser resolvidos de forma mais preventiva e eficiente.
Por fim, o defensor ressaltou que a ausência de diálogo entre os atores do sistema de saúde tem causado sofrimento às famílias e contribuído para a deterioração de casos, especialmente entre adolescentes que enfrentam problemas de dependência química, cujos responsáveis buscam apoio para internação sem respostas rápidas na rede pública.
