Escoras: Um Patrimônio Histórico em Risco
O problema do abandono e da degradação do patrimônio histórico em Cuiabá vai além da antiga Gráfica Pepe, que voltou a ser tema de debate na última semana. Vários imóveis tombados no Centro Histórico da capital mato-grossense enfrentam condições críticas, com ao menos três propriedades necessitando de escoras para evitar o colapso. Essa situação não apenas simboliza a perda de parte da história cultural da cidade, mas também apresenta riscos aos pedestres que transitam pelas calçadas adjacentes.
Robinson de Carvalho Araújo, arquiteto e urbanista, além de superintendente de Preservação do Patrimônio Histórico e Museológico da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel), destaca a importância das escoras. “Esses suportes têm a função de minimizar riscos para a população, pois a estrutura do imóvel está em colapso. Elas servem tanto para proteger as pessoas quanto para preservar o edifício, mantendo sua integridade até que recursos para a restauração sejam encontrados. Poderíamos dizer que é uma sobrevida, uma UTI para o imóvel”, afirma Araújo.
Imóveis Históricos em Perigo
Um dos locais mais emblemáticos em risco é um prédio localizado na rua Campo Grande, na esquina com a Pedro Celestino — conhecida como antiga Rua de Cima. Este edifício colonial do século XVIII, que já abrigou a Associação Literária Cuiabana em 1884, é um testemunho da riqueza cultural de Cuiabá. A partir de 1908, foi sede dos Correios e Telégrafos, inaugurada pelo General Cândido Mariano da Silva Rondon.
Na década de 1920, o imóvel foi utilizado como agência do Banco do Brasil e, em 1934, serviu como residência de Mário Corrêa da Costa, ex-governador de Mato Grosso. Ao longo dos anos, também funcionou como Secretaria Geral do Estado, Delegacia Regional do Ministério do Trabalho e Previdência Social. Fotos antigas revelam que até 2015, o local era habitado e acolhia uma alfaiataria. Desde 2017, a deterioração tem avançado, e o prédio se encontra completamente abandonado, tomado pelo mato. As escoras foram instaladas em 2019 para sustentar as frágeis paredes.
Desafios à Preservação
Robinson Araújo ressalta que o declínio do Centro Histórico, iniciado nas décadas de 70 e 80, contribuiu para o afastamento de usos mais qualificados e comerciais na região. “Esse imóvel está sem uso há muito tempo, sendo uma joia preservada, mas em risco. Se cair, perderemos um patrimônio que já testemunhou a evolução da sociedade cuiabana”, destaca Araújo.
O arquiteto argumenta que o prédio merece uma campanha de conscientização para sua preservação. “Se esse edifício ruir, não haverá como reverter o dano. Ele já contribuiu com a comunicação entre Cuiabá e o resto do mundo, e isso é suficiente para justificar sua preservação”, acrescenta. Com uma estrutura construída em terra, o imóvel possui uma combinação de estilos arquitetônicos que refletem a herança dos bandeirantes e de imigrantes franceses que chegaram à região.
Qualidade da Construção em Risco
A construção em terra crua, embora impressionante e de alta qualidade para a época, apresenta desafios frente à umidade. Robinson observa que, na ausência de uma cobertura adequada, a infiltração de água compromete a estrutura, que carece de reforços como concreto e ferro, tornando-se mais suscetível ao colapso. “Quando a situação chega a esse ponto, a recuperação se torna extremamente difícil”, conclui Araújo.
