Tensão Geopolítica e Seus Efeitos na Agricultura
A escalada das tensões no Oriente Médio já começa a refletir nos custos do agronegócio brasileiro, especialmente na formação dos preços da safra 2026/27 em Mato Grosso. Um estudo recente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), divulgado no dia 11, aponta que o agravamento do conflito na região e as dificuldades logísticas no Estreito de Ormuz provocaram uma drástica alta no preço futuro da ureia, impactando diretamente os custos de produção agrícola.
Conforme o levantamento, a instabilidade no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas utilizadas para o transporte de petróleo, gás natural e fertilizantes, aumentou a incerteza quanto à oferta global desses insumos. Essa situação encareceu fretes e seguros marítimos, além de ampliar o risco de restrições no abastecimento. O bloqueio do tráfego na região já resultou em embarcações presas nas costas de Omã e dos Emirados Árabes Unidos, exacerbando a pressão sobre o mercado internacional.
Esses dados são especialmente preocupantes em um momento crítico para o abastecimento brasileiro. No caso dos fertilizantes nitrogenados, as importações normalmente se intensificam a partir de março, concentrando-se em maior volume durante o terceiro e quarto trimestres do ano. Já os fertilizantes fosfatados contam com um movimento mais robusto entre o segundo e o terceiro trimestres, apresentando também um aumento a partir de março, época em que se inicia a formação de estoques para atender à demanda das principais culturas. Na prática, a alta internacional coincide com o período em que o Brasil agrava a reposição desses insumos, tornando a situação ainda mais delicada.
A Alta dos Custos e Seus Reflexos no Milho
O efeito mais imediato da crise já se faz sentir na ureia. O contrato futuro para março de 2026 teve um aumento expressivo, atingindo US$ 618 por tonelada em 5 de março, o que representa uma alta de 30,65% desde o início do conflito. Em Mato Grosso, a preocupação maior recai sobre o milho, uma vez que a aquisição de insumos para a safra 2026/27 ainda está em estágio inicial, deixando os produtores vulneráveis às oscilações de preço. De acordo com o Imea, até o momento, apenas 5,95% das negociações de fertilizantes para a cultura haviam sido concretizadas.
Em uma simulação para o milho de alta tecnologia cultivado em Sinop, o instituto estima que um aumento de 30% nos preços dos fertilizantes nitrogenados poderia elevar em 4,68% o Custo Operacional Efetivo (COE), equivalente a 5,90 sacas de milho por hectare. Além disso, o estudo indica que para cada 10% de aumento no custo por ponto de nitrogênio, o impacto no COE é de 1,97 saca por hectare.
O cenário se torna ainda mais delicado para o milho em Mato Grosso, onde apenas 5,95% da comercialização de fertilizantes para a próxima safra foi realizada até o período analisado, um percentual muito inferior à média histórica para esta época. Considerando que as aquisições costumam ganhar ritmo entre o primeiro e o segundo trimestres, a disparada dos preços internacionais impacta o produtor logo no início da janela de compra, o que pode elevar os custos gerais da safra e até atrasar algumas negociações.
Planejamento Agrícola em Tempos de Incerteza
Com essa situação, uma parte significativa do planejamento para a próxima safra terá que ser realizada em um ambiente de custos mais altos e maior volatilidade. Os fertilizantes nitrogenados, como a ureia, têm um peso considerável no custo do milho, enquanto os fertilizantes fosfatados têm impacto mais significativo sobre a soja, uma cultura que é mais dependente desse tipo de insumo para a formação da lavoura.
Segundo Rodrigo Silva, coordenador de Inteligência Agropecuária do Imea, os riscos vão além do aumento pontual do preço da ureia. “O Estreito de Ormuz é estratégico para o escoamento de petróleo, gás natural e transporte de fertilizantes produzidos no Oriente Médio. Com os navios retidos, seguros marítimos mais altos e risco de restrições de oferta, o agronegócio brasileiro pode enfrentar uma inflação nos custos de produção e uma pressão sobre as margens”, alerta.
Na perspectiva do Imea, a combinação entre a dependência de insumos importados, dificuldades logísticas e a alta dos preços internacionais pode comprometer a previsibilidade do planejamento agrícola e, consequentemente, reduzir a rentabilidade das próximas safras. Caso o cenário geopolítico se mantenha, Mato Grosso deve iniciar o ciclo 2026/27 com insumos mais caros, maior pressão sobre os custos e margens menores para os produtores.
