Análise das Transformações no Mercado de Trabalho
No último sábado (21), o XIX Congresso Estadual do Sintep-MT, realizado no Hotel Fazenda Mato Grosso em Cuiabá, fechou seus painéis discutindo ‘O movimento sindical e a diversidade de forças frente aos desafios da IA e a nova formatação do mundo do trabalho’. O evento contou com a presença do professor doutor em Educação, Daniel Figueiredo de Oliveira, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e da presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Fátima Silva.
Durante sua apresentação, Daniel Figueiredo abordou as tendências tecnológicas, especialmente a Inteligência Artificial (IA), alertando que, embora muitas previsões indiquem a extinção de milhões de postos de trabalho devido às alterações em curso, esse fenômeno não é inédito. “Essa transformação remete ao processo de industrialização que já vivenciamos anteriormente”, disse ele, acrescentando que estamos diante de uma nova forma de “colonização”.
O professor enfatizou que a colonização atual vai além do domínio de recursos naturais e da exploração ambiental. “Estamos sendo colonizados em nossos dados e na nossa atenção. Corporações de grande porte investem em lobistas e políticos, dificultando qualquer tentativa de alcançar soberania digital”, destacou.
Desigualdades Aprofundadas pela Automação
De acordo com Figueiredo, o impacto da IA no mundo do trabalho não será apenas uma questão quantitativa, mas também qualitativa, levando a um aprofundamento das desigualdades. “A automação concentra renda e poder nas mãos de quem controla a infraestrutura tecnológica, aumentando a precarização do trabalho. Enquanto se menciona a substituição do ser humano, cresce um exército invisível que dá suporte à IA”, afirmou.
O professor ainda alertou que a narrativa em torno da eficiência encobre uma redistribuição desigual do sofrimento, que resulta em menos estabilidade, maior controle e mais competição, em contrariedade à promessa de libertação inicialmente apresentada.
Ele também fez referência a um relatório do Fórum Econômico Mundial, que aponta a educação como uma das áreas que pode ver seus empregos ameaçados pela IA. Contudo, ele acredita que a realidade será distinta, com uma maior demanda por educadores no futuro.
O Papel dos Educadores na Era da IA
“Nosso trabalho não é apenas transmitir informações, mas sim discutir significados. Os educadores se tornam guardiões da interpretação em um cenário onde plataformas digitais capturam a atenção e transformam o aprendizado em métricas”, explicou. Para ele, não se trata de rejeitar as tecnologias, mas de adaptá-las a uma abordagem crítica e racional.
Figueiredo defendeu que tanto a sala de aula física quanto a virtual são espaços de disputa. Ele enfatizou a necessidade de fortalecer o sindicalismo, especialmente em tempos de precarização e uberização no setor educacional. “Valorizar sindicatos e coletivos docentes é reafirmar que a educação não deve ser tratada como uma mercadoria”, declarou.
Unidade e Resistência no Cenário Atual
A presidenta da CNTE, Fátima Silva, complementou essa análise, reafirmando a importância da memória construída pelos estudantes ao longo de suas vidas. Durante o Congresso, ela destacou apresentações culturais dos alunos, evidenciando que “a produção da educação pública em Mato Grosso não se encaixa em um modelo de homeschool, nem em escolas militarizadas, ou em instituições que não promovem uma gestão democrática”.
Com relação ao contexto atual, onde a IA pode homogeneizar o conhecimento, Fátima enfatizou a necessidade de unidade para enfrentar os desafios que surgem e entender em que contexto a educação e a categoria estão inseridas. “Nós não somos os donos das Big Techs, mas sim os transportadores do conhecimento. Somente compreenderemos como trabalhar e lutar ao lado da IA se entendermos nosso papel nesse cenário”, afirmou.
A dirigente nacional também ressaltou a importância da organização dos educadores, mencionando a estrutura de luta que parte dos municípios, incluindo subsedes sindicais, até as entidades nacionais e internacionais, como CNTE, CUT, IEAL e IE. “É a nossa organização que garantirá a defesa da educação pública, em oposição à mercantilização da educação e em prol da valorização de todos nós, através de uma educação que humaniza”, finalizou.
