Corantes Artificiais: Atraentes, Mas Prejudiciais
Uma pesquisa recente publicada no Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics analisou a composição de 39.763 produtos disponíveis nas prateleiras de supermercados americanos, revelando que os corantes artificiais, frequentemente usados para tornar os alimentos mais atraentes, especialmente para o público infantil, podem ter efeitos adversos no comportamento das crianças. À medida que novas evidências científicas surgem, o debate sobre a segurança desses aditivos se intensifica.
O estudo foi realizado por um time de especialistas do The George Institute for Global Health, da Universidade da Carolina do Norte e do Center for Science in the Public Interest. Os pesquisadores examinaram ingredientes de alimentos e bebidas produzidos pelas 25 maiores fabricantes dos EUA, enfocando cinco categorias populares entre crianças: doces, bebidas açucaradas, refeições prontas, cereais matinais e produtos de panificação.
Riscos Associados a Alimentos Ultraprocessados
Os resultados da pesquisa foram alarmantes: produtos alimentícios voltados para crianças apresentaram uma probabilidade significativamente maior de conter corantes sintéticos, sendo que 28% desses itens continham esses aditivos, contra apenas 11% nas outras categorias. Além disso, os alimentos coloridos mostraram níveis de açúcar muito superiores, com uma média de 141% a mais em comparação aos produtos sem corantes – 33,3 gramas de açúcar a cada 100 gramas, em contraste com 13,8 gramas nos produtos sem adição de corantes.
A pesquisadora Elizabeth Dunford, do The George Institute e professora adjunta no Departamento de Nutrição da Universidade da Carolina do Norte, manifestou preocupação com a proliferação desses aditivos. “É decepcionante ver que, apesar das evidências acumuladas ao longo de quatro décadas sobre os danos à saúde causados pelos corantes sintéticos, eles continuam amplamente presentes, especialmente em produtos direcionados às crianças”, afirmou.
Impactos na Saúde e No Comportamento Infantil
Dunford destacou que os altos níveis de açúcar associados a esses corantes sugerem que as empresas estão utilizando esses aditivos como estratégia para comercializar alimentos e bebidas doces, ambos vinculados a problemas de saúde. O estudo também revelou que marcas conhecidas no mercado estão entre as que mais utilizam corantes artificiais: a Ferrero apresentou corantes em 60% de seus produtos, enquanto a Mars fez o mesmo em 52% de sua linha. Na categoria de bebidas, mais da metade (51%) dos energéticos da PepsiCo continham corantes sintéticos, assim como 79% das bebidas esportivas.
Thomas Galligan, cientista-chefe para aditivos alimentares e suplementos do Center for Science in the Public Interest, comentou que os corantes sintéticos são desnecessários no sistema alimentar americano, mas a eliminação deles está progredindo lentamente. “A FDA pediu que a indústria alimentícia retirasse voluntariamente os corantes sintéticos do mercado, mas muitas empresas que prometeram fazer isso anteriormente não cumpriram. Portanto, ainda é prematuro afirmar se atenderão a esse novo pedido”, disse.
Regulamentação e Conscientização do Consumidor
Galligan também sugeriu que, caso a FDA exigisse rótulos de advertência para produtos com corantes sintéticos, como já acontece na União Europeia desde 2010, haveria um incentivo maior para as empresas reformularem seus produtos. Esses rótulos ajudariam os consumidores a fazer escolhas mais informadas.
Por sua vez, Dunford vê com bons olhos o fato de que vários estados americanos apresentaram projetos de lei este ano para restringir o uso de corantes sintéticos, e acredita que os dados do estudo podem ser fundamentais para fundamentar decisões de políticas públicas. “Enquanto o processo regulatório não acompanhar as evidências científicas, pais e consumidores devem estar atentos aos rótulos e evitar produtos que contenham corantes sintéticos e altos níveis de açúcar. Se um produto tiver qualquer um desses ingredientes, a recomendação é não comprá-lo, especialmente para as crianças”, concluiu.
