Reflexões sobre o cenário atual dos quadrinhos
No Dia do Quadrinho Nacional, celebrado em 30 de janeiro, a importância dos gibis ganha destaque, levando a uma reflexão sobre o futuro e as tradições dessa arte. Em Mato Grosso, o debate se torna ainda mais significativo ao reunir duas gerações de ilustradores. Os veteranos, que já vivenciaram momentos vibrantes no cenário, contrastam com os jovens, que enfrentam desafios em um ambiente mais discreto. Para marcar esta data, o Entretê conversou com Rick Milk, de 46 anos, representante da “velha guarda” das HQs, e João Victor Ferreira, de 22 anos, que simboliza as promessas do futuro.
Nos anos 1990 e 2000, Cuiabá se destacou por abrigar coletivos de quadrinistas que compartilhavam ideias, publicavam fanzines e organizavam eventos locais. Apesar de modesto, esse movimento foi crucial para formar leitores e dar visibilidade a artistas da região. Com o passar do tempo, essa energia foi se dissipando, resultando em um cenário onde predominam iniciativas individuais, muitas vezes impulsionadas pela vontade de contar histórias.
Ric Milk: A experiência da velha guarda
Ric Milk, que desde cedo decidiu que os quadrinhos fariam parte de sua trajetória, relembra suas principais influências, como a irreverência de Chiclete com Banana, de Angeli, Glauco e Laerte. Atualmente, ele está ocupado com a finalização dos roteiros de sua nova obra, *Turma do Mato*, que se destina ao público infantil e mescla crítica social com imaginação.
Na visão de Ric, o mercado brasileiro de quadrinhos vive um bom momento, principalmente com o crescimento de projetos autorais que se beneficiam do financiamento coletivo. No entanto, ele sente falta da força que o movimento local já teve. “Antigamente, havia grupos de quadrinhos. Hoje, não percebo um movimento significativo há tempos. O pessoal se organiza muito mais em outros lugares”, comenta.
Com 30 anos de experiência em ilustração, Ric também destaca a dificuldade de viver exclusivamente dos quadrinhos. “Na maioria das vezes, os artistas têm que complementar a renda com outros trabalhos, seja ilustrando livros, em artes plásticas ou mesmo na esfera pública.” Apesar dos desafios, ele mantém a esperança. “As redes sociais abriram um espaço incrível para novos talentos. Sempre surgem autores novos, talentosos, que utilizam as plataformas com maestria”, afirma.
João Victor Ferreira: A perspectiva da nova geração
João Victor Ferreira, representando a nova geração, ainda busca seu espaço em um estado onde os quadrinhos não têm a visibilidade que merecem. Para ele, o principal obstáculo é o desinteresse do público, um reflexo da falta de investimentos e incentivos para produções locais. “Os quadrinhos nacionais ainda são vistos como algo muito nichado, o que reduz seu apelo popular e dificulta a conquista de um público mais amplo”, explica.
Inspirado em ícones como Maurício de Sousa, João nota que muitos leitores ainda preferem mangás e comics americanos, o que limita a circulação das HQs locais. “Sem um público maior, fica difícil para editoras investirem em novos artistas e obras nacionais”, afirma.
O jovem ilustrador também discute a dificuldade de se profissionalizar na área e as múltiplas funções que precisa desempenhar: “Muitos artistas acabam conciliando a produção de quadrinhos com outras atividades para garantir uma renda, e isso impacta diretamente na continuidade e qualidade dos projetos.” Apesar disso, ele vislumbra sinais positivos em feiras e coletivos que estão em crescimento em outras regiões e que podem inspirar Mato Grosso.
Uma transição cheia de desafios e esperanças
A comparação entre Ric Milk e João Victor revela duas facetas de um mesmo universo: o veterano que testemunhou a queda de um movimento forte e o jovem que ainda busca seu espaço em um cenário restrito. Ambos, no entanto, compartilham a visão de que os quadrinhos brasileiros são uma fonte de leitores e uma expressão cultural que merece mais atenção.
“Os quadrinhos são uma fábrica de leitores. Tudo começa com um gibi na mão”, destaca Ric, ressaltando que tanto crianças quanto adultos podem cultivar o hábito da leitura através dos quadrinhos. João Victor acrescenta: “Cada HQ publicada, cada tirinha compartilhada, pode inspirar novos talentos e manter viva a tradição.”
Entre a experiência de Ric Milk e as esperanças de João Victor Ferreira, torna-se evidente que os quadrinhos em Mato Grosso estão em uma fase de transição. Embora haja desafios, como a escassez de um público amplo e a falta de grupos organizados, existem sinais de resistência e inspiração. Neste Dia do Quadrinho Nacional, a mensagem é clara: valorizar os artistas locais é um investimento no futuro da nona arte em nosso estado.
