O Impacto da Hanseníase em Mato Grosso
Mato Grosso se destaca como o estado com o maior número de casos de hanseníase no Brasil, apresentando um cenário hiperendêmico preocupante. Dados recentes da Secretaria de Estado de Saúde (SES) revelam que, em 2025, foram registrados 4.276 novos casos da doença, além de 5.336 pacientes em tratamento. Ademais, em 2024, a hanseníase resultou em cinco mortes de mato-grossenses. A criação do Dia Mundial de Combate à Hanseníase, proposta pelo jornalista e ativista francês Raoul Follereau, visa aumentar a conscientização sobre a enfermidade, e, desde 1954, a data é oficializada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo celebrada no último domingo de janeiro, em conjunto com a campanha Janeiro Roxo.
Os dados referentes a Mato Grosso são alarmantes, incluindo 74 casos de hanseníase em comunidades indígenas em 2024. Contudo, as autoridades não divulgam informações sobre a etnia ou o aldeamento dos pacientes. Durante anos, esforços do governo para reduzir a incidência da doença têm falhado, resultando em uma luta constante sem resultados significativos, comparável a um ‘enxugar gelo’. Especialistas atribuem o problema a fatores sociais que cercam a hanseníase, que ainda carrega o estigma histórico da lepra. Curiosamente, os estados com melhor desenvolvimento não estão entre os mais afetados. Após Mato Grosso, os estados com maior número de casos incluem Maranhão com 1.758, Bahia com 1.748, Pará com 1.489, e Pernambuco com 1.453. Contudo, muitos casos permanecem subnotificados, não devido à falta de estatísticas precisas, mas pela relutância dos pacientes em buscar tratamento em suas localidades, motivados pelo estigma associado à doença.
A Hanseníase no Cenário Internacional
No plano internacional, o Brasil apresenta uma situação preocupante, com 22.129 novos casos registrados em 2024. A OMS indica que, globalmente, houve 172.717 casos. A Índia lidera esta triste estatística com 100.957 novos casos, enquanto a Indonésia ocupa a terceira posição com 14.698 casos. Em 1995, um programa ambicioso para erradicação da hanseníase em Mato Grosso foi lançado pelo então secretário estadual de Saúde, Júlio Müller Neto, mas a meta não foi alcançada. Naquela época, o intenso fluxo migratório e a infraestrutura inadequada da saúde pública dificultaram a consolidacão do programa, principalmente em Cuiabá, que enfrentava um rápido crescimento populacional desordenado.
O tratamento da hanseníase é gratuito e o diagnóstico pode ser realizado nos postos de saúde do estado. O Centro Estadual de Referência em Média e Alta Complexidade (Cermac), em Cuiabá, é a principal referência para o atendimento. Além do Cermac, existem os Ambulatórios de Atenção Especializada Regionalizados (AAER) em várias cidades, como Tangará da Serra, Juína, e Várzea Grande.
Projetos de Intervenção e Novas Iniciativas
Janaina Pauli, coordenadora da Vigilância Epidemiológica da SES, informou que a SES está envolvida em um Projeto de Intervenção Diagnóstica, que visa atender municípios com altos índices de falha no tratamento da hanseníase. Em 2025, a doença foi identificada em 129 municípios de Mato Grosso, mas o Ministério da Saúde não apresentou dados sobre Boa Esperança do Norte, que foi inaugurado naquele ano. Os municípios com o maior número de novos casos incluíram Cuiabá, Colniza, e Juína, entre outros, afetando tanto pequenas quanto grandes localidades em todas as regiões do estado.
A hanseníase é uma doença com um período de incubação longo, podendo permanecer assintomática por até dez anos. Por esse motivo, é conhecida como ‘invisível’, tornando-se frequentemente detectável apenas anos após a infecção. Em muitos casos, os sintomas iniciais demoram de dois a cinco anos para se manifestar.
Aspectos Históricos e Sintomas da Doença
Histórica e biblicamente mencionada, a hanseníase já foi chamada de lepra, e seus portadores eram isolados em instituições específicas. O termo hanseníase é uma homenagem a Gerhard Hansen, que descobriu o bacilo causador da doença. Trata-se de uma infecção contagiosa que se propaga de uma pessoa não tratada para outra, afetando indivíduos de todas as idades e classes sociais, especialmente em casos de contato prolongado com o bacilo. Os principais sintomas incluem manchas na pele e perda de sensibilidade, além de formigamentos e dormência nas extremidades. Profissionais de saúde alertam que esses sinais também podem indicar outras condições, e, ao notar qualquer sintoma, é primordial procurar imediatamente um posto de saúde.
Entre janeiro e novembro de 2025, o Cermac registrou 1.814 atendimentos relacionados à hanseníase em 778 pacientes, incluindo consultas médicas e atendimentos multiprofissionais. A equipe é composta por especialistas de diversas áreas, como dermatologia e assistência social.
Histórico e Conscientização
Mato Grosso tem um longo histórico no que diz respeito à hanseníase, marcada por estigmas e isolamento de portadores no passado. A Casa Pia São Lázaro, uma das primeiras instituições voltadas para o tratamento da doença, foi inaugurada em Cuiabá em 1816. Com a atuação de organizações não governamentais, como a DAHW, que começou a atuar no estado em 1979, esforços de conscientização e assistência médica foram implementados ao longo dos anos, mas muito ainda precisa ser feito para combater esta enfermidade silenciosa.
