Memórias e Tradições em Foco
Na última terça-feira (20), o documentário “Bocaina – Terra de Fé e Raízes” teve sua estreia na comunidade que inspirou a obra, localizada no distrito de Santo Antônio de Leverger, em Mato Grosso. A produção, financiada pela Lei Paulo Gustavo (LPG), destaca a tradicional Festa de São Sebastião, que celebra quase um século de história. A exibição foi emblemática, reunindo membros da comunidade em um momento de reverência e celebração.
O curta-metragem captura a essência do festejo através das memórias e histórias compartilhadas pelos moradores mais antigos, enfatizando a fé, a coletividade e a religiosidade popular como pilares da identidade local. Com o apoio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), do Governo Estadual e do Ministério da Cultura, a produção se insere no contexto de valorização das narrativas locais.
Uma Realização Pessoal e Coletiva
Idealizado pela pesquisadora Thamara Luiza, que também atua como co-diretora e roteirista, o documentário não é apenas uma obra audiovisual, mas um registro da memória afetiva da comunidade. “Sou bocaneira e tataraneta de Mãe Rita, a responsável pela promessa. Quando perdi minha avó e minha tia, percebi a urgência de registrar nossa história”, compartilha Thamara, expressando seu compromisso com as raízes culturais que moldam Bocaina.
As filmagens tiveram início em 25 de janeiro de 2025, coincidentemente no dia que marca o início da programação da festa. Thamara comenta sobre a integração da equipe na dinâmica da celebração: “A festa não parou para a equipe trabalhar. Entramos nas movimentações já existentes. A verdadeira essência da comunidade se revela durante a festa”.
Personagens da Tradição
O documentário apresenta figuras essenciais para a realização do evento, como Dona Diva, uma das líderes culinárias; Oreste Castelo, capelão e cantor de cururu; e Maria do Carmo, presidente da Associação dos Devotos de São Sebastião (ADESSCOB). Cada um deles traz uma contribuição vital que dá vida à festa e à narrativa do filme.
Thamara ressalta a importância de estrear o documentário em Bocaina. “Mostrar o filme primeiro na comunidade é uma forma de respeitar os mais velhos. Receber o apoio deles foi fundamental e essa entrega precisava ser significativa”, explica. A realizadora menciona também a ansiedade e felicidade que a estreia gera, sentindo-se espiritualmente conectada com seus antepassados.
Desafios e Representatividade no Cinema
A direção do documentário é compartilhada com Juliana Segóvia, que também se destaca na direção de fotografia. Juliana enfatiza o desafio de construir uma narrativa que respeite a profundidade do território e das pessoas retratadas. “Trabalhar essa história exigiu um cuidado extremo com a sensibilidade visual e discursiva”, afirma, destacando a importância de representações autênticas no cinema.
Juliana destaca a colaboração com o Aquilombamento Audiovisual Quariterê, um coletivo que visa promover a representação correta de pessoas negras e indígenas no cinema. “É essencial que as representações evitem reforçar estereótipos. O cinema deve ser uma coletividade, onde todos que participam são reconhecidos como cineastas”, argumenta.
Uma Celebração da Resistência Cultural
Para Thamara, a Festa de São Sebastião é uma verdadeira “tecnologia de resistência”, transmitindo saberes que atravessam gerações. Rituais como a procissão, cururu e lambadão são heranças que mantêm a comunidade unida. “A festa educa sobre coletividade, pertencimento e continuidade”, explica.
O protagonismo das mulheres negras na festa também é um aspecto central da narrativa, refletindo a realidade da comunidade. Thamara ressalta que a maioria da população de Bocaina é negra, e as mulheres desempenham um papel crucial na festa e na vida comunitária. “Essa escolha reforça a identidade do território e orienta nosso olhar estético”, afirma.
Impacto das Políticas Culturais
Financiado pela LPG, o documentário envolveu cerca de 30 profissionais do audiovisual, mostrando como o fomento público é vital para a geração de empregos e para a preservação de narrativas marginalizadas. Thamara observa que leis como a Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc permitem que realizadores fora dos grandes centros tenham acesso a recursos e espaços de decisão, contribuindo para um cinema que valoriza as localidades e suas identidades.
Rafaela Pedroso da Silva, moradora de Bocaina e fundadora de uma página dedicada à cultura local, expressa o impacto da festa em sua vida. “A Festa de São Sebastião une nossas famílias e amigos, formando uma verdadeira família São Sebastião”, celebra Rafaela, que destaca a emoção de ver a história da comunidade retratada no documentário.
Uma História que Dialoga com o Brasil
Apesar de ser uma celebração local, “Bocaina – Terra de Fé e Raízes” dialoga com tradições culturais de todo o Brasil. Para Thamara, as festas de santo refletem uma experiência comum a muitas comunidades. “As pessoas vão se reconhecer nas festas, nas tradições, na fé e no trabalho coletivo”, destaca.
A expectativa é que o documentário não apenas fortaleça o orgulho da comunidade, mas também contribua para a preservação da memória cultural. Após as exibições em Bocaina e no Cine Teatro Cuiabá, a equipe planeja expandir o alcance do filme, levando a cultura da baixada cuiabana a outras regiões do Brasil.
