Transformações Tecnológicas no Agronegócio
Com a consolidação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, as relações comerciais do agronegócio brasileiro com os países europeus estão prestes a crescer significativamente. Contudo, para se destacar nesse novo mercado, o setor agropecuário nacional precisa comprovar sua conformidade com normas ambientais e práticas sustentáveis, além de garantir a rastreabilidade de sua produção. A urgência nessa adaptação é ainda maior, visto que a União Europeia está em vias de implementar uma legislação antidesmatamento, adiada em mais de uma ocasião, com previsão para entrar em vigor ao final deste ano.
Essa nova realidade de negócios exige uma transformação radical na maneira como a produção rural é conduzida, monitorada e validada. Com o recurso de tecnologias avançadas, produtores brasileiros de itens como soja, café e carne podem assegurar, com precisão geográfica e documental, que suas cadeias produtivas não estão ligadas a áreas desmatadas ou práticas irregulares. Dessa forma, a demanda por certificações ESG (ambiental, social e de governança) e rastreabilidade deverá aumentar consideravelmente no Brasil.
Inteligência Artificial como Aliada
Segundo Esteban Huerta, arquiteto de soluções da BlueShift, a tecnologia é fundamental para transformar o vasto potencial agrícola do Brasil em eficiência e transparência. Ele ressalta: “O Brasil possui um dos ecossistemas agrícolas mais complexos e produtivos do mundo. A tecnologia, especialmente as soluções baseadas em dados e Inteligência Artificial (IA), permite que os produtores enfrentem riscos e demonstrem práticas responsáveis, facilitando o acesso a novos mercados”.
Huerta explica que a medição de sucesso da produção, tradicionalmente determinada pela rentabilidade ou pela quantidade de sacas colhidas, pode ser ampliada pela IA, que ajuda a identificar padrões. Por exemplo, em uma plantação de café, ao analisar dados de cinco anos, a IA pode determinar o período de maior produtividade e os fatores que contribuíram para isso.
O Uso de Sensores para Aumentar a Produtividade
Imagine um sistema onde um sensor monitora a umidade do solo, correlacionando essas informações com dados sobre temperatura e incidência de raios solares. Essa integração permite, por exemplo, prever a produção de acordo com as condições climáticas. Se um ano marcado por baixa umidade e altas temperaturas resultou em menor colheita, o produtor começa a compreender a importância da umidade no processo produtivo.
Huerta sugere que os produtores adotem pequenas culturas para otimizar o uso de defensivos e fertilizantes, sempre com base em dados. Ele critica a abordagem comum entre agricultores familiares e grandes empresas, que se baseia em consumo anterior: “Se comprei 500 litros de fertilizante no ano passado e a produção foi a mesma, vou precisar de 500 litros de novo. Mas será que realmente precisa de tudo isso?”. Com a inteligência de dados, é possível calcular com exatidão a quantidade necessária para maximizar os resultados.
Rastreabilidade e Transparência no Agronegócio
O uso de tecnologia na agricultura não apenas reduz desperdícios, mas também otimiza recursos naturais, ajudando a atingir as metas de ESG e descarbonização. Através da IA, que utiliza plataformas avançadas de análise de dados e sensores integrados, os produtores conseguem monitorar cada etapa do ciclo produtivo, desde o plantio até o envio dos produtos. Essa capacidade permite detectar anomalias, prever riscos ambientais e registrar digitalmente todo o histórico de cada lote, garantindo completa rastreabilidade e transparência para auditorias e certificações.
Todas as informações da cadeia produtiva são armazenadas em blockchain, uma tecnologia de registro digital que assegura a autenticidade e imutabilidade dos dados. Huerta explica: “A blockchain atua como um rastreador. Se você possui uma cafeteria que só compra café de uma fazenda 100% orgânica, como garantir que é realmente esse café? A blockchain oferece a segurança de rastreabilidade e integridade das informações”.
Custos e Benefícios da Implementação
De acordo com Huerta, a implementação de um sistema robusto como o mencionado custa entre R$ 15 e R$ 30 por hectare, com uma manutenção mensal de R$ 15 por hectare. A expectativa é que a adoção dessas tecnologias resulte em um aumento de até 20% na produtividade e eficiência agrícola. Ele destaca ainda que a tecnologia vai além da mera conformidade com exigências ambientais; trata-se de um movimento de modernização e competitividade global no agronegócio. “Quando o produtor compreende que sustentabilidade e rentabilidade andam lado a lado, a inovação se torna uma parte natural do negócio. Isso está impulsionando a nova era do agronegócio brasileiro,” conclui o especialista.
