Oportunidades e Desafios
Após 25 anos de intensas negociações, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia se concretiza, mas não sem impor desafios significativos aos produtores do agronegócio de Mato Grosso. Mesmo que as portas estejam abertas, a caminhada para a plenitude das oportunidades está repleta de exigências rigorosas que podem impactar diretamente o setor. Um clima de cautela otimista se instala, pois, embora o pacto represente um marco histórico, é evidente que o cumprimento de normas ambientais será um fator determinante para o sucesso ou fracasso das exportações.
O estado de Mato Grosso, que se destaca como o maior exportador de carne bovina do Brasil e um dos principais players globais na produção de proteína animal, vê neste acordo mais do que uma simples abertura de mercados. Trata-se de uma chave-mestra, que, embora capaz de abrir diversas portas, exige um entendimento profundo das normas e requisitos específicos de cada uma.
Frango: O Grande Vencedor
Entre os produtos beneficiados, a carne de frango se destaca claramente. O acordo prevê a concessão de 180 mil toneladas anuais com tarifa zero, um aumento significativo em relação ao volume atual — 12 vezes maior. Isso coloca o frango brasileiro em uma posição competitiva favorável contra os produtores europeus. Em um cenário onde o Brasil já exportou 4,5 milhões de toneladas de frango apenas em 2025, essa nova cota pode representar 3,4% do total exportado, simbolizando um reconhecimento da eficiência e sanidade da produção avícola local.
Segundo Bruno de Jesus Andrade, diretor do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), “Mato Grosso possui uma cadeia avícola altamente integrada e eficiente, capaz de atender às rigorosas exigências da UE”. A ausência de tarifas nesta cota elimina obstáculos significativos de custo, permitindo que o frango mato-grossense possa competir de igual para igual com os concorrentes que enfrentam custos de produção de até 40% mais altos. Contudo, a implementação desse acordo se dará em seis etapas até 2031, exigindo paciência e estratégia dos produtores.
Carne Bovina: Menos Volume, Mais Valor
No que diz respeito à carne bovina, um dos principais produtos do agronegócio mato-grossense, a situação é mais complexa. O acordo oferece uma cota de 99 mil toneladas com uma tarifa de 7,5%. Para muitos, isso é visto como insuficiente, especialmente quando comparado às 206 mil toneladas que o Mercosul exportou para a Europa no ano anterior. A senadora Tereza Cristina, vice-presidente da Frente Parlamentar Agropecuária, expressou seu ceticismo: “Abre portas e estabelece cotas, mas o livre comércio ainda está distante”.
O verdadeiro trunfo da pecuária de Mato Grosso pode não estar na quantidade, mas na valorização dos produtos. A possibilidade de a União Europeia pagar preços premium por cortes bovinos — cada tonelada vendida na região pode render 152,67 arrobas de boi gordo, em comparação a 87,50 na China — indica uma mudança necessária: menos volume e mais receita. A eliminação imediata da tarifa da Cota Hilton (10 mil toneladas de cortes premium com tarifa zero) reforça essa tendência, levando os produtores a investir em confinamento e terminação intensiva de animais jovens.
Suínos: Um Passo Lento
Na suinocultura, tradicionalmente uma atividade secundária nas exportações, Mato Grosso conquistou a sua cota própria de 25 mil toneladas, com uma tarifa de €83 por tonelada. No entanto, essa possibilidade de acesso ao mercado europeu é considerada pequena por muitos especialistas. “É uma cota insuficiente para gerar impacto econômico relevante de forma imediata”, afirma o Cepea. O desafio será desenvolver uma presença real no mercado, especialmente competindo com estados como Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Os produtores terão que focar em estabelecer conexões em diversos mercados europeus, adaptando seus produtos aos paladares locais e construindo uma boa reputação. Contudo, as tarifas punitivas para produtos industrializados, como presuntos e defumados, limitam a capacidade de agregar valor antes da exportação, mantendo o estado como um exportador de commodities in natura.
Desafios Ambientais e Regulamentações Estritas
As barreiras não-tarifárias, como o Regulamento Europeu Antidesmatamento, se tornam o verdadeiro desafio do acordo. Este regulamento exige a comprovação de que toda a cadeia produtiva — desde o cultivo até o frigorífico — não esteja envolvida em desmatamento ilegal após 2020. Para Mato Grosso, onde 13% do território apresenta inconsistências ambientais, essa exigência representa um risco considerável. “Pode restringir compras mesmo de áreas legalmente abertas após 2020”, lamenta Lucas Beber, presidente da Aprosoja-MT.
A diretora do Imac, Paula Queiroz, ressalta que essa regulamentação pode ter efeitos adversos: “Excluir produtores em regularização pode marginalizá-los e aumentar o desmatamento ilegal”. O paradoxo das exigências ambientais europeias, criadas para proteger a Amazônia, pode acabar forçando produtores para fora do mercado formal.
Expectativa e Realidade
A divergência de percepções entre os dois lados do Atlântico ilustra as complexidades do acordo. Por um lado, na França, a rede Carrefour anunciou um boicote à carne do Mercosul, citando preocupações ambientais; por outro lado, a ABIEC vê o tratado como uma fonte de “previsibilidade e diversificação”. De acordo com a análise do Ipea, o Brasil pode ver um aumento de até US$ 521 milhões em faturamento com a venda de carne bovina, embora esse montante seja modesto em comparação aos bilhões gerados pela China.
Para as carnes de aves e suínos, a estimativa de US$ 2,57 bilhões é mais significativa, mas depende da habilidade dos produtores em ampliar a produção dentro das novas diretrizes. “A Europa não flexibiliza suas regras de segurança alimentar”, resume César Miranda Leite, ex-presidente do Conselho de Administração do Imac. Isso deixa claro que o acordo abre a porta, mas cada produtor deve ter a chave correta, e essa chave requer investimentos em tecnologia, certificação e conformidade.
Conclusão: Uma Oportunidade Histórica
A avaliação final para Mato Grosso é positiva, mas repleta de ressalvas. A carne de frango apresenta o maior potencial de crescimento em volume, enquanto a carne bovina deve focar em cortes premium para garantir valorização. A suinocultura, por sua vez, ganhou uma oportunidade simbólica para o futuro.
No entanto, não se pode esquecer que a capacidade de Mato Grosso de aproveitar essas oportunidades dependerá criticamente de três fatores: garantir a conformidade ambiental com o EUDR até 2026; investir em rastreabilidade eficiente ao longo de toda a cadeia produtiva; e criar estratégias de valorização que destaquem cortes de nicho, marcas próprias e compromissos com a sustentabilidade. “O acordo é um marco, mas a implementação é uma maratona”, conclui Eliamar Oliveira, consultora da Famasul. E essa maratona, ao contrário dos 25 anos de negociações, será disputada em tempo real, com os produtores enfrentando a pressão de cada auditoria e cada certificação em busca de espaço no exigente mercado europeu.
