Transformando o Consumo do Café no Brasil
Nos últimos sete anos, a forma como os brasileiros consomem café vem passando por uma significativa transformação, impulsionada pelo crescimento dos cafés especiais. Este fenômeno social é mais do que uma simples mudança de gosto; é uma nova cultura que prioriza a experiência, a identidade e a sustentabilidade. O empresário Brandão, por exemplo, entrou nesse universo em 2020 com a criação do Café di Preto, um espaço que busca valorizar a história de produtores negros na cadeia cafeeira. Em suas redes sociais, Brandão promove uma conscientização sobre a conexão entre o consumo de café e a identidade cultural brasileira.
“Eu não sabia nada sobre como o café era produzido e seu papel em nossa cultura”, revela Brandão. “Quando comecei a investigar a história dos negros na produção de café, percebi que a narrativa estava distorcida, restringindo a população negra apenas ao papel de mão de obra forçada nos cafezais.”
A Quarta Onda do Café no Brasil
Estudiosos do setor explicam que o Brasil ainda está engatinhando na chamada Quarta Onda do café, uma fase que visa democratizar e personalizar o consumo da bebida, focando em aspectos como rastreabilidade e tecnologia. Esse movimento se expande de forma mais lenta em comparação com países como Estados Unidos e na Europa. Os dados revelam essa disparidade: o Brasil, como maior exportador de café do mundo, ainda prioriza a produção em larga escala do chamado “café commodity”, que se caracteriza por grãos padronizados e vendidos a preços mais acessíveis.
Um estudo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) divulgado em 2024 ressalta que cerca de 60% do café consumido no país provém das categorias Tradicional e Extraforte, que estão associadas a grãos de qualidade inferior e torra intensa. Este padrão influencia diretamente o paladar do consumidor, que acaba se acostumando com um perfil de sabor mais amargo e escuro. Por outro lado, os cafés especiais, que passam por um processo de torra mais leve, revelam os sabores naturais dos grãos, como acidez e doçura.
Um Novo Estilo de Vida ao Redor do Café
Embora os cafés especiais ainda representem apenas 1% do consumo nacional, a comunidade que os aprecia vem crescendo, especialmente com o auxílio das redes sociais, que ajudam a divulgar essa nova cultura. Amanda Demetrio, barista e especialista em cafés especiais, observa: “O Brasil está passando por uma mudança cultural no consumo do café: a cafeína agora é vista como uma pausa, um momento de prazer.” Ela acrescenta que, apesar de ainda não ser um grande volume de mercado, essa tendência sinaliza que estamos apenas no início desta nova história no consumo de café no Brasil.
A demanda por cursos de formação sensorial para baristas vem aumentando, com mais pessoas buscando aprimorar sua experiência com o café. “Desde que comecei a dar aulas, o número de alunos dobrou a cada ciclo”, conta Amanda. “As pessoas estão cada vez mais interessadas em saber sobre cafés de qualidade, com o surgimento de novas torrefações e cafeterias.”
Educação e Acessibilidade no Consumo de Café
Alberto Sampaio, fundador da Tábikòfi, uma cafeteria que também realiza a torrefação do café, acredita que a popularização da Quarta Onda depende de um trabalho educacional junto aos consumidores. “O nome da nossa marca, Tábikòfi, que significa ‘o café’ em iorubá, reflete essa preocupação com as nossas origens”, destaca Sampaio. Ele observa que muitos clientes chegam à sua cafeteria com pouquíssimos conhecimentos sobre café e saem com novas expectativas e interesses. “Quando voltam, já buscam cafés de regiões específicas, como Mantiqueira ou Bahia, e começam a se interessar por perfis de torra e características sensoriais.”
Sampaio organiza seus clientes em três categorias: aqueles sem referências sobre café, aqueles com alguma noção e os chamados “tough lovers”, que são os consumidores mais exigentes. Embora esse último grupo ainda seja minoritário, o número de clientes curiosos e em busca de qualidade tem aumentado significativamente. “Tentamos ser educativos, mas sempre sem esnobismo. O cliente não deve ter vergonha de pedir açúcar, mas ao mesmo tempo explicamos como experimentar a bebida pura pode revelar outros sabores”, explica Sampaio.
Café Especial como Símbolo de Autocuidado
Juliana Ganan, autora do livro “Por trás da sua xícara”, argumenta que o café especial se tornou um símbolo de autocuidado. “Preparar o café é um ritual que envolve escolha e atenção. Esse momento de cinco minutos antes de começar o dia traz uma sensação contemplativa e de desaceleração”, afirma a empresária. Com uma década de experiência à frente da Tocaya Torrefadores de Café, localizada no sul de Minas Gerais, Ganan percebe que as redes sociais têm trabalhado para desmistificar a ideia de que o universo do café especial é acessível apenas a um público restrito.
