Empreendimentos de Luxo Alavancam o Mercado Imobiliário
O agronegócio brasileiro, com suas cifras trilionárias, está impulsionando o mercado imobiliário em diversas regiões do País. Incorporadoras, atentas a essa mudança, têm desenvolvido empreendimentos de alto padrão, visando convencer empresários rurais a trocarem suas amplas fazendas por apartamentos em arranha-céus ou condomínios que oferecem helipontos, spas e piscinas aquecidas.
Um exemplo notável é o condomínio Premier Aeronáutico Residencial, localizado em Sinop (MT), que promete um aeroporto privativo com pista de 1,6 mil metros para atrair esse público específico. Com 1,3 milhão de metros quadrados, o projeto inclui lotes com acesso à marina e ao píer do Rio Teles Pires, além de um restaurante com vista privilegiada para a pista de voo.
Fundada pelo ex-deputado estadual Dilceu Dal’Bosco, a incorporadora tem se especializado na região em resposta ao crescimento de Sinop, que se consolidou como um polo estratégico do agronegócio no Brasil. Dados da consultoria Brain Inteligência Estratégica indicam que a cidade recebeu a marca de mais de 14 mil novos imóveis entre 2023 e 2025.
“A força do agro atrai constantemente novos moradores, o que impulsiona o capital intelectual e o desenvolvimento do mercado imobiliário”, analisa Rafaela Zanirato, diretora criativa da Truvian Arquitetura, especializada em condomínios resort no centro-oeste.
Crescimento Moderado e Oportunidades no Centro-Oeste
Um levantamento da Brain revela que, entre o primeiro trimestre de 2024 e 2025, o centro-oeste recebeu 27,4 mil novas unidades. Embora o número ainda seja inferior ao registrado no sudeste, representa um crescimento superior a 10% em relação ao período anterior. Além disso, o Valor Geral de Vendas (VGV) na região chegou a R$ 4,9 bilhões no primeiro trimestre de 2025, mostrando um aumento de 15,2% em comparação ao mesmo período em 2024.
Apesar desse otimismo, Rafaela salienta que o crescimento ainda é marcado pela cautela. Os empregos gerados pelo agro são essenciais para moldar o perfil das cidades. “Os novos condomínios, além de oferecerem serviços como salão de beleza e spa, incorporam elementos culturais, como espaço para assar costela de chão e uma arena de bocha”, destaca.
Contrapõe-se a realidade de São Paulo, onde muitos lançamentos não incluem vagas de garagem, enquanto nas áreas dominadas pelo agronegócio, essas são essenciais e precisam ter tamanho adequado para caminhonetes, que são comuns entre os residentes. “Dada a escassez de grandes restaurantes, os imóveis também devem ter espaço suficiente para receber convidados”, complementa Zanirato.
Exemplos de Sucesso e Expectativas Futuras
O Hamoa Resort Residencial, desenvolvido pela JMD Urbanismo e projetado por Zanirato, exemplifica o novo cenário. Localizado em Sorriso (MT), a capital do agronegócio e maior produtora de soja do Brasil, o condomínio conta com 485 lotes variando de 420 m² a 1,5 mil m², além de piscinas aquecidas, uma academia de 300 m², campo de futebol, quadra de tênis e até um parque aquático.
O preço médio do metro quadrado na fase de lançamento variou entre R$ 1,9 mil e R$ 2 mil, e o VGV totalizou R$ 500 milhões, com a venda da maior parte dos lotes realizada em questão de minutos.
A construtora São Benedito, estabelecida em 1983 e uma das mais importantes do centro-oeste, possui 55 empreendimentos e 5 mil unidades entregues ou em construção em cidades como Cuiabá e Sinop. Com previsão de entrega para 2027, um dos projetos da construtora tem VGV de R$ 200 milhões, com loteamento variando entre R$ 540 mil e R$ 774 mil, alcançando clientes com rendas desde R$ 10 mil até mais de R$ 100 mil.
A empresa anunciou um VGV de R$ 2 bilhões em lançamentos apenas neste ano, refletindo a força do centro-oeste, que se destaca como a região mais dinâmica do agronegócio no País.
Expansão Também em Outras Regiões
Regiões como Barreiras na Bahia, que se destaca na exportação de soja, algodão e milho, também assistem a um aumento na construção de apartamentos luxuosos. A incorporadora Construvale, fundada por jovens empreendedores sulistas, tem apostado em projetos verticais de alto padrão. O Residencial Villa Lobos, por exemplo, foi o primeiro grande projeto da construtora e se tornou um dos mais exclusivas da cidade.
Atualmente, o grande destaque é a Torre Brennand, um edifício de 17 apartamentos. Com três a quatro vagas de garagem por morador e unidades que variam de 255 m² a 512 m², o preço médio é de R$ 2,5 milhões, com todas as unidades já vendidas. A fonte afirma que projetos similares em capitais, como São Paulo, poderiam alcançar R$ 4 milhões.
O agro também está moldando o mercado em Goiânia e Balneário Camboriú, onde a City Soluções Urbanas desenvolve estratégias para atender a demanda crescente do segmento. “Quando o agro impulsiona a economia local, outras áreas também florescem, aumentando o poder aquisitivo desses profissionais”, afirma João Gabriel Tomé, sócio-fundador da empresa.
Um exemplo emblemático é o City 23 by Pininfarina, que conta com apartamentos de luxo e previsão de entrega para março de 2028. Com um preço médio do metro quadrado de R$ 17 mil e unidades que chegam a R$ 9 milhões, essa iniciativa reflete o sucesso do agro mesmo em regiões mais urbanizadas.
O Fischer Dreams, da Procave, é mais um exemplo do apelo que o agro exerce em Balneário Camboriú, onde 30% dos compradores de imóveis pertencem ao setor agrícola. O projeto, que está em construção em um antigo hotel de luxo, contará com 119 apartamentos e infraestrutura de lazer superior.
O agronegócio, portanto, não só altera o panorama rural como também transforma as paisagens urbanas, com a criação de empreendimentos que refletem as mudanças no perfil econômico do Brasil.
