O Legado de Pimentel na Gestão de Zema
Assim como a relação entre Jair Bolsonaro (PL) e o PT, o atual governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), deve sua ascensão em parte ao governo de Fernando Pimentel (PT). A conexão se fortalece não apenas pela maneira como Pimentel administrou o estado, mas também por decisões tomadas em seu mandato, como a suspensão do pagamento das parcelas da dívida no final de sua gestão, uma medida que acabou beneficiando Zema.
O cenário que permitiu a eleição de Romeu Zema em 2018 foi moldado por um forte sentimento de insatisfação com a política tradicional, representada pelo lavajatismo e por narrativas contrárias aos partidos estabelecidos. Zema decidiu não apoiar o PT ou o PSDB, históricos bastiões da política mineira, onde o vice-governador Mateus Simões (PSD) teve suas origens. O político do Novo se aproveitou do discurso da inadimplência, assumindo uma postura que lhe permitiu não honrar as parcelas da dívida durante quase todo o seu governo, resultando em um aumento significativo dessa dívida, que subiu de R$ 88,77 bilhões em 2018 para R$ 177,48 bilhões atualmente. O retorno aos pagamentos só ocorreu em outubro de 2024.
A Inadimplência como Estratégia Política
Com o passar dos anos, o governo de Pimentel continua a gerar dividendos políticos para Zema. O governador se apresenta como o responsável por “resolver” a inadimplência com servidores e municípios, mas, na verdade, transferiu a responsabilidade da dívida para a União. Como diria Jânio Quadros: “Devo, não nego, pago quando puder.” Zema contou com o apoio do presidente da Assembleia, Tadeu Leite (MDB), e dos partidos PT e PV para articular, junto ao governo Lula, o Programa de Pleno Pagamento das Dívidas de Estados (Propag), que buscou uma solução definitiva para a dívida estruturada de Minas com a União.
Apesar dessa articulação, Zema adotou uma postura crítica e até descortês em relação ao governo federal durante as negociações do Propag, como se dissesse que a responsabilidade pela situação do estado não era dele. Essa falta de elegância tende a desviar a atenção das verdadeiras necessidades de Minas Gerais, onde as narrativas divisórias têm ganhado força. O governador tem se destacado por suas aparições em eventos digitais, buscando criar visibilidade por meio de discursos polêmicos e ideológicos.
As Contradições de Zema em Busca de Apoio
Entre suas polêmicas, Zema não se esquiva de fazer afirmações que ressoam com o bolsonarismo, como a negação de que houve ditadura no Brasil, e suas tentativas de associar-se a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na corrida presidencial. O governador agora se vê numa posição desconfortável, percebendo que o apoio desejado de Bolsonaro não se concretizou. Ainda assim, ele não hesita em se considerar como vice em uma possível chapa com o senador.
Em suas redes sociais, Zema tem tentado se projetar como uma figura que nega a política tradicional, mas seus gestos acabam por desvirtuar a imagem que deseja transmitir. Recentemente, foi visto em uma imagem que captou a atenção por sua informalidade: pés descalços e sandálias, em um cenário onde se espera uma representação mais robusta do estado que governa. Em Montes Claros, onde está uma das fábricas de sandálias da Alpargatas, a realidade contrasta com a imagem que Zema tenta passar.
Movimentações no Cenário Político Mineiro
O cenário político em Minas Gerais também está em ebulição com a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto, o que pode resultar em reaproximações significativas entre a União e o governo Lula. Além disso, há negociações em curso para que o prefeito Álvaro Damião (União) assuma a presidência da federação, enquanto o deputado federal Rodrigo de Castro assumiria a liderança da legenda.
Se essas movimentações se concretizarem, o senador Rodrigo Pacheco (PSD) poderá retornar à União, partido que marcou o início de sua trajetória política. A articulação política se estende ainda ao vice-governador Mateus Simões, que tem se movimentado para destacar a isenção do IPVA para veículos acima de 20 anos, em um esforço para reforçar sua imagem e preparar o terreno para futuras eleições.
O cenário político em Minas é um reflexo das tensões e contradições presentes na política brasileira, onde interesses pessoais e estratégicos muitas vezes se sobrepõem ao bem comum. As decisões de Zema e seus desdobramentos serão fundamentais para os rumos do estado e suas relações com o governo federal.
